segunda-feira, novembro 27, 2006

Chuva lá fora. A alegria entrecortada. Chuva cá dentro.
A mais pura certeza que a alma só se abre quando o espírito não é mais do que uma janela molhada.

Quis o mundo mostrar-me o mais básico dos anticivismos. Coisas de pouca monta, trivialidades de um jogo que não interessa à cultura.

A alegria entrecortada.

O sofá parece acolhedor nestas alturas. Uma série da Fox e umas bolachas de chocolate. Envelhece-se depressa, sem deixar correr o tempo. Os pequenos prazeres parecem sempre demasiado efémeros...

quinta-feira, novembro 09, 2006

Inspiro-me

Inspiro-me? Nada mais errado.
Como se o ego não se construísse. Deixaste-me assim, a pele nua. Um Outono de palavras, com folhas secas de pontuação. Foi-se o momento, a respiração sentida. Agora o que resta é um manto de pensamentos. O peito cansado e uma memória recalcada.
Espero rever-te, sem mais delongas, o negro justo, o coração apertado, a esperança de que retornas... sempre. Sem destinos retorcidos, confusões de tempos ou relógios chatos, inoportunos. Apenas tu. Como se o mundo não se concluísse. Basta-me o olhar, o sorriso, o peso da tua mão...
Agora sim, inspiro-me. O tempo passa, mas tu não.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Sucesso


Hoje fui o último a sair do balneário. Apetecia-me sentir até ao último assomo da sua existência temporal aquele saborzinho da vitória, aquele eco dos festejos, aquele trago de sucesso que senti também ser meu. Acima de tudo sentia-me útil. Aquilo a que os mais românticos chamarão a “sensação do dever cumprido”. O sucesso será sempre mais uma ferramenta de medição das coisas, bem sei, não comparável à rectidão de uma fita métrica ou de um conta-quilómetros, mas ignorando-se as intromissões de invejas ou afins, o seu valor é inegável e de longe o mais reconhecido. Tem o poder de esquecer agruras e relevar optimismos. De afastar maus augúrios e exacerbar agradecimentos. Mas também a capacidade de por ténues momentos, pelo meio dos seus exageros, arrastar consigo a justiça…

Apertei o casaco e olhei uma última vez para a bancada agora vazia. Ao fundo as nuvens laranja, silenciosas companheiras de cenário, em último vislumbre de tranquilidade… Era tempo de voltar à vida, às perrices, aos distanciamentos indevidos, às pressões, aos egoísmos, às reflexões de pé de chinelo e um mais não sei quê de algo que não importa.

Deixemo-nos por momentos de apertos indevidos. Já bastam as amarras da mente, aquelas que nos incomodam quando a sorte tudo torna fácil, demasiado simples para aqueles pensamentos intrincados. Há-de vir sempre mais uma filosofia, um estigma que teime em estragar e tirar o sentido das coisas.

Deixem-me por momentos respirar o ar de fim de tarde, relaxar ao sabor de uma tranquilidade doce, sentir a brisa, não o vento, desligar o rádio e seguir caminho em estrada aberta…

Deixem-me parar de ser injusto, de procurar incessantemente a justiça, de ter medo de arriscar, de arriscar quando não sei, de não pensar antes de agir, de viver a vida a pensar…

Libertem-me as amarras da mente, os complicómetros da vida, deixem-me alcançar a realização, deixem-me ousar seguir o trilho… em direcção ao sucesso.
PS.: Não tenho outra tradução para a injustiça: desculpa-me.

sábado, novembro 04, 2006

Um minutinho

Eh pah, façam uma pausa e tirem um minutinho... Depois digam-me se não valeu a pena :p

http://www.youtube.com/watch?v=X7SWS4RoUYU

domingo, outubro 29, 2006

O jogo...


A pedido de algumas famílias, aqui fica a crónica do clássico. Aquele jogo. O jogo...
FCP 3 SLB 2
Com um início de jogo agressivo, a pressionar bem alto e a cortar as iniciativas do adversário bem junto à área benfiquista, o FCP encostou o rival às cordas. Anderson e Quaresma conseguiam ter bola nos pés no último terço de campo e isso constitui, por si só, um risco que normalmente se paga caro. Daí que, já depois de Lucho ter posto à prova Quim e Anderson ter tirado tinta à barra, ambos em lance de bola parada, o golo de Postiga/Lisandro, tenha vindo mesmo a calhar para as ambições portistas. Indiscutivelmente um golo de sorte, mas também uma consequência lógica da sagacidade da entrada portista e, mais do que isso, do excelente momento psicológico que atravessa o avançado, rematador, dinamizador, chatinho para os defesas, para mim o melhor jogador em campo.

O Benfica, por sua vez, tal como disse o engenheiro, falhava claramente no processo defensivo (muito espaço entre linhas, falta de agressividade na luta pela posse de bola, desacerto nas marcações), contudo, desde cedo começou a explorar a brecha que era o lado direito da defesa azul, o lateral Fucile, jogador com grande propensão atacante mas demasiado tenro a defender. Leo só não fez mais porque o pé direito não o permitiu…

Sem tirar o pé do acelerador, o Porto chegou ao 2-0. Momento mágico de Quaresma, a limpar Nelson do lance e depois a “engatar” aquele fantástico remate em arco. O Benfica andou depois a deriva. Os azuis aproveitaram o elan e chegaram-se a ver cruzamentos de letra. Não será excessivo afirmar que cheirou a goleada. Mas surge depois o momento do jogo. Anderson sofre entrada dura de Katsouranis e sai, lesionado. Jesualdo não arrisca e reforça a intermédia com Meireles. 1º erro, Lucho não é jogador para assumir decisões na transição defesa-ataque, e com dois médios defensivos a linha baixa do meio campo portista parece vacilar (como se havia notado contra o Sporting). Notou-se variadas vezes quando o desamparado Fucile tinha que levar com Simão, Leo, as vezes Paulo Jorge. À falta de extremo para ajudar a defender (Lisandro é voluntarioso, mas ocupa ineficazmente os espaços, Quaresma simplesmente não vem), e com Lucho com mais liberdade para atacar, seria um dos médios mais recuados a ter a obrigação de fechar o flanco, o que nunca veio a acontecer durante todo o jogo. O Benfica consegue então equilibrar a contenda, acerta as iniciativas de ataque e esmaga completamente o lado direito portista, graças ao qual cria duas oportunidades de golo, por Kikin e Paulo Jorge. Helton responde com classe.

A segunda parte inicia-se ao mesmo ritmo. Os benfiquistas entram forte, sempre a atacar pela esquerda. Depois uma fase de equilíbrio, mais graças ao voluntarismo de Postiga e ao talento de Quaresma do que propriamente à capacidade de circulação de bola portista, quase nula depois da saída de Anderson. Com a entrada de Nuno Assis e Mantorras, o Benfica assume claramente a superioridade do jogo. Katsouranis aproveita a ingenuidade de Fucile e reduz. Jesualdo demora a reagir e quando faz, fá-lo mal. Tira o único desiquilibrador e faz entrar Tarik, sem ritmo e sem chama. Depois de perda de bola de Cech (era notório que não havia a quem passar a bola em fase da definição do último passe), uma jogada exemplar do contra-ataque benfiquista e o empate, por Nuno Gomes. Justo.

O final de jogo foi emocionante. Havia claramente duas equipas a procurar a vitória. O FCP aproveitou-se talvez do seu maior querer e da sorte do jogo que já havia mostrado ter aquando da marcação do primeiro tento. Ironicamente foi Fucile a lançar. Não já tão ironicamente foi Moraes a marcar. O miúdo foi a melhor (única boa) substituição do professor Jesualdo.
Em suma, o empate parecia-me o resultado mais justo. Mas também há que reconhecer, que nos momentos de superioridade, o Porto conseguiu mesmo encostar o adversário as cordas, e a infelicidade de Anderson, a meu ver, foi mais de metade da felicidade do Benfica. Mas fica o mais importante, um excelente jogo de futebol

sexta-feira, outubro 27, 2006

Sentiste?


Sentiste o mundo a parar?

As gotas da chuva que subitamente já não molhavam, as nuvens que agora já não corriam, a leve brisa do vento que por instantes cessou?

O momento de paz que se prolonga sem destino aparente, o pensamento que se afasta, para bem longe, para a terra do mar e dos luares brilhantes, das folhas secas decalcadas em cada passo teu, do bocadinho de céu deixado para trás pelos anjos em dia de pressa indevida…

Sei porque o sinto. Acabou-se o temor. Só porque algo acontece. Tu. Basta-me, envolve-me, engrandece-me, completa-me. Algures entre a indignação e a virtude…ou apenas entre o sentimento que permanece, imune a intempéries ou inundações mundanas, muito menos esse oceano…

Vejo as árvores de outra maneira, agora têm nome, personalidade, protegem-nos! A vida prega-nos cada partida… O beijo? :) sorrio, apenas. Quero que tudo seja assim… Um beijo, um sorriso, uma gota, um abraço, um sem número de acasos simples que esbocem esse trilho. Que a lua apareça em todas as noites. Que a água continue a correr, lentamente, nos rios. Que a terra, vista da lua, continue a ser azul…

O beijo? Sorrio, apenas…
PS.: este sol radioso…ou o poder do teu sorriso? ;)

sexta-feira, outubro 20, 2006

Dias...


dias

Aqueles dias em que se acorda ao contrário, virado para os astros do mal, amaldiçoando a chuva na vidraça que há bem pouco tempo nos afagava antes do sono…

Aqueles dias em que procura um rumo, se luta por esse reconhecimento, por essa festinha na alma que nos faça sentir melhor, se procura um sucesso firme, uma etapa verdadeira…

Os dias em que acordar não é mais do cumprir o piloto automático…

Valha-nos um recanto… A luz da lua, outra vez, as sombras de um encanto inesgotável, a beleza de uma alma tão pura que nos parece janela para o céu… Uma sorte que nos faz parecer indignos perante tamanha graciosidade…

Afinal acordei abençoado…afinal a chuva na vidraça mais não era que a antecâmara da tua visita, com o encanto de uma manhã de Outono, mais as folhas secas, o ambiente calmo e acolhedor, o gesto simples e afável, a ternura que só tu sabes oferecer…

“Will you still love me in the morning?”
“Forever and ever, babe…”

domingo, outubro 15, 2006

O talvez e o sacrifício


Tenho um banco no pátio em que me costumo sentar para escrever. Hoje lembrei-me do quanto havia já passado desde a última vez que o usara. Penso que talvez tenha mudado o meu sistema de orientações, de forma a que as divagações existenciais já não mereçam espaço privilegiado por entre as preocupações rotineiras ou os assuntos de amor que tanto enobrecem a alma. A mesma ordem de razões que me impedem de deixar escorrer aquele lado manhoso de temporadas passadas, de trago fácil e cigarrada à descrição, estórias contadas ao sabor de um cálice e de um discurso sentido. Talvez com propriedade possa dizer que me sinto velho. Talvez não esteja talhado para viver entre as preocupações mundanas da sociedade que nos acolhe. Ou talvez apenas não queira aceitar os sacrifícios como vivências quotidianas como toda a gente os vê. Talvez não olhe para o sacrifício como algo curriqueiro, porque na equação simples da vida sempre me habituei a olhar para ele apenas como um meio para atingir um fim. Um fim que mais não represente do que o inicio de uma nova luz, um fim que motive, que nos lembre o que fazemos por aqui, o objecto de uma existência. Um fim que nos orgulhe…e que nos trace um rumo. Dito assim, quase que aposto, ninguém lhe chama sacrifício

"Temos de renunciar ao mundo para o compreender."
Jean Grenier

segunda-feira, setembro 25, 2006

O momento...


Já viste estas nuvens? E as montanhas? E as luzes das casinhas perdidas no horizonte?
Eu sei, são bonitas…
Só dizes isso? Como podes ficar tão indiferente?
Conheço tudo isto, moro por cá…
Tens ideia da sorte que te assalta?
Talvez não, desconheço o meu rumo.
E não te preocupas?
Isso ser-me-ia completamente inútil.
Não posso acreditar! Apercebes-te tu da infinidade de coisas que te rodeiam? Dos pormenores que tornam a tua existência algo mais do que aprazível? Da aura que te acompanha para todo o lado para onde vais, como se de um anjo da guarda se tratasse? Acorda, vive, sente…A vida, não fundo, não passa de um momento.

"Pensa no momento. Todo o pensamento que perdura é contradição."

Marcel Schwob

segunda-feira, setembro 18, 2006

Os melhores momentos do amor


"Nos transportes do amor, na conversa com a amada, nos favores que recebes dela, até nos mais extremos, vais mais em busca da felicidade do que à tentação de provar isso de que o teu coração agitado sente uma grande falta, um não-sei-quê de menos do que ele esperava, um desejo de algo, mesmo de muito mais. Os melhores momentos do amor são aqueles de uma tranquila e doce melancolia em que choras e não sabes porquê, e te resignas quase na quietude a um infortúnio que desconheces. Nessa quietude, a tua alma está quase cumulada, e quase sente o gosto da felicidade. Assim como no amor, que é o estado da alma mais rico de prazeres e ilusões, a melhor parte, a via mais correcta para o prazer e para uma sombra de felicidade é a dor."

Giacomo Leopardi, in 'Pensamentos Diversos'

domingo, setembro 10, 2006

Confissões de uma mente perigosa...


Os momentos de reflexão têm destas coisas, a de por vezes nos mostrarem as nossas burrices. Gostava ter começado aqui de outra forma. A sério que sim. Acho que a origem deste quadro de registos merecia outra coisa. Mas tal como não podes fugir dos teus próprios medos, também eu por vezes me sinto incapaz de tornear os meus defeitos. Está claro que nunca irei conseguir ser tão bom como tu. Estás nos píncaros de tudo o que a bondade pode significar. Eu limito-me a seguir os trâmites desta vida que me persegue a cada dia que passa. Tomo as decisões em função do que penso ser correcto. Meço o meu ego, encho-o à custa de calculismos fúteis e sigo a minha vida, esquecendo-me muitas vezes do maior raio de luz que entrou na minha alma desde que o sol voltou a sorrir. Sou egoísta e insensível, e pior do que isto, integro-o como algo aceitável. Oxalá o mundo fosse um lugar mais simples. Podia clamar-se por justiça, como se de uma heroína se tratasse, para repor no coração de quem o merece o carinho que constantemente dá. Mas o mundo não é assim tão simples, nem eu, e por isso tenho medo. Medo do mundo, medo das coisas…no fundo, medo de mim.
09/09/06
algures entre Amarante e Penafiel

terça-feira, setembro 05, 2006

Só mais um post(e)


Enquanto deambulava ontem pelos Correios, não consegui deixar de reparar na vasta colecção de obras literárias que se acomodavam nas estantes. Livros de auto-ajuda, o livro de S. Cipriano em versão resumida, romances de trazer por casa… Dei por mim a pensar nessa coisa estranha que é a motivação pela escrita, ou os momentos de inspiração que a acompanham com indesmentível coerência. É coisa que nasce com a pessoa? É coisa inconstante, que aparece e desaparece sem aviso? Se nasce connosco porque vai embora de vez em quando? E se não é constante, então como sabemos quando a esperar? Enfim...

Vinha isto a propósito desta prolongada ausência de post(e)s. Tinha acabado, pela altura em questão, de cumprir a minha obrigação diária de fazer alguma coisa por mim próprio. Mais do que uma questão de auto-comiseração, faz-me dormir descansado. A sensação do dever cumprido ou a pequena ilusão de que uma simples carta poderá dar um novo rumo à nossa vida…

Adiante. Se há coisa que me acalma são as paisagens do campo da Belavista. Os calorosos cumprimentos do sr. António são já banalidade carinhosa, atestados de incompetência profissional é que não. Reajo firme e sigo em frente com vigor.

Segue-se uma “piscinada” relaxante (eu e os neologismos, que se há-de fazer…). Assim dá gosto misturar trabalho com lazer… De regresso a casa a confirmação de uma constatação há muito conhecida: o calor impede-me de funcionar correctamente. Devia ter nascido com uma etiqueta no pescoço, bem visível, que dissesse “manter a temperaturas abaixo dos 30º, em caso de avaria meter num avião e enviar para as Maldivas, mas com carinho”.

Chegas hoje. Não faz mal. No fundo no fundo, nunca de cá saíste.

PS.: Só mesmo para escrever mais um post(e).

sexta-feira, agosto 11, 2006

O teu dia


Escrevo-te hoje porque é o teu dia.

Porque hoje mereces ser lembrada do quanto tens de bom, do quanto ofereces todos os dias a todos os que te rodeiam, do quanto melhoras este universo desde o dia em que nasceste.

Mas também…

Porque mais do que nunca há um sentimento especial que surge
Como a doçura das manhãs que nos abraçaram
Ou a brisa da enseada que nos afagou
O toque, a caminhada, o intimismo puro

Ou um simples pôr-do-sol por entre as montanhas
Só suplantado pelo meu melhor cenário…
Tu…

Parabéns :)

***

quinta-feira, agosto 03, 2006

Meus lindos olhos



Meus lindos olhos,
qual pequeno Deus
Pois são divinos,
de tão belos os teus.

Quem tos pintou,
com tal condão
Jamais neles sonhou
criar tanta imensidão.

De oiro celeste,
Filhos de uma chama agreste
Astros que o alto céu revestem
E onde a tua história é escrita.

Meus lindos olhos, de lua cheia
Um esquecido do outro,
a brilhar p’rá rua inteira.

Quem não conhece teu triste fado
Não desvenda em teu riso
um chorar tão magoado.

Perdões perdidos
Num murmúrio desolado
Quando o réu morava ao lado
Mais cruel não pode ser.

Este fado que aqui canto
Inspirou-se só em ti
Tu que nasces e renasces
Sempre que algo morre em ti

Quem me dera poder cantar
Horas, dias, tão sem fim
Quando pedes só para mim
Por favor só mais um fado.

Mafalda Arnauth

sexta-feira, julho 28, 2006

Já que estamos numa de cinema...


Permita-me o sr. Jorge Silva, do 7arte.net, colocar aqui a sua crónica ao "Fiel Jardineiro", do genial Fernando Meirelles ("Cidade de Deus"), com a qual concordo em pleno. Não me ocorre a colocação de adendas, a não ser o reforço da qualidade deste filme, que mistura uma das mais belas histórias de amor já vistas com um enredo bem mais que simplesmente razoável, conotado de uma moralidade que nos toca e deixa a pensar. A forma como Meirelles filma o continente africano e a crueldade das suas ruas é brilhante, como o já havia sido nas favelas brasileiras, com esse soberbo extra que são as paisagens quenianas. Apaixonante...
"Porque o amor é aquilo que mais vale a pena e salvar uma pessoa é salvar o mundo inteiro, vale muito a pena ver «O Fiel Jardineiro».
Narrativa que imbrica a história de amor entre Justin (magnífico Ralph Fiennes, de uma contenção à prova de bala) e Tessa (bela e ambígua Rachel Weisz) com a intriga global composta pela promiscuidade entre a indústria farmacêutica e a diplomacia britânica, este é um feliz exemplo do casamento entre a diversão e a reflexão. E há duas coisas particularmente comoventes neste filme. A primeira é a forma como dá a ver as vidas com diferentes preços: África surge como um continente maldito permanentemente colonizado (transformando-se a antiga colonização política numa neo-colonização económica). Uma vida no Quénia vale muito pouco e poucos se importam com isso (eles são tantos que, se não os podemos ajudar a todos, mais vale não ajudarmos nenhum.). A segunda é a maneira como Justin vai acabar por completar o trabalho da sua mulher na ausência dela. É nessa viagem também de auto-descoberta que, vendo as coisas com os próprios olhos, Justin percebe melhor a mulher e acaba por partilhar o seu ponto de vista. É, no fundo, através da reconstituição da vida (algo secreta) dela que ele acaba por sublimar o amor entre os dois.
Trata-se de um importante relato global dos nossos iníquos tempos que se torna particularmente emotivo por não existir fora das convulsões particulares de cada ser humano. Que isto resulte da adaptação de uma obra de John Le Carré por parte de um cineasta brasileiro como Fernando Meirelles é, no mínimo, surpreendente. E que bela banda-sonora de Alberto Iglesias."
Jorge Silva
PS.: Eu já era fan de Rachel Weisz. Agora...
PS parte II: Permite-me o desabafo, já sabes que continuas a ser a minha activista preferida ;)

Charlie e a fábrica de chocolate


Já havia ficado a ideia desde o fantástico Big Fish, mas de Tim Burton, para além das imagens, da criatividade, da banda sonora (Danny Elfman em grande, como sempre), das ideias ou da imaginação, o que realmente salta à vista é aquela extraordinária maneira de contar histórias, como se de um conto da vida se tratasse. Simplesmente excelente.

domingo, julho 16, 2006

All mine


All the stars may shine bright,
All the clouds may be white,
But when you smile,
Oh how I feel so good,
That I can hardly wait
To hold you,
Enfold you,
Never enough,
Render your heart to me.
All mine,
You have to be
From that cloud, number nine,
Danger starts the sharp incline,
And such sad regrets,
Oh as those starry skies,
As they swiftly fall.
Make no mistake,
You shan't escape,
Tethered and tied,
There's nowhere to hide from me.
All mine,
You have to be
So don't resist,
We shall exist
Until the day,
Until the day, I die.
All mine,
You have to be
All mine - Portishead

quarta-feira, julho 12, 2006

Melancolia?


Melancolia?
Perguntava eu a recente amiga de smiles incontáveis e "super poderes".
A resposta saiu indefinida, como que a medo, mas percebi claramente que era um sim. Porque só daquela forma fazia sentido. Porque só assim se justificava aquele bucolismo, aquela tristeza que emanava de bons momentos passados…

Terei acabado o dia de hoje melancólico?

Houve uma manhã de pasmaceira e um início de tarde quente, sufocante, daqueles que empurra o corpo para uma inoportuna inércia. Houve depois conversa com alguém respeitável. De homem para aprendiz de homem, ou de dois simples seres que buscam o âmago da vida como objectivo uno de uma existência. [também eu quero um dia ir ao México ver os templos Aztecas] Aprendi, aprendo sempre. Como absorver verdades que tolhem sob o signo da frieza, como ser realista em mundo de subterfúgios, como ver a vida em ciência…ou simples caminho predestinado.

Pensei que depois fosse ter uma boa notícia. Saiu uma desilusão.

Vieste então tu com encantos de anjo, aquele olhar vivo que me fez apaixonar, uma saia redonda da cor da lua…Um cenário ameno, um jantar de modos simples, o prazer de uma verdadeira companhia…Portishead, um filme ligeiro, não, jamais te trataria como aquele palhaço, aperto-te a mão com mais força, apetecia-me dizer ao mundo o quanto era bom estar ao teu lado, o quanto me parecias bela naquela noite…

[Sabes, hoje coloquei a tua fotografia mais bonita no pass-partout que me deste]

Corro para casa, amargurado por esse peso que me amordaçava, na esperança de que o papel me aconselhasse nessa missão tardia…

Há um animal prostrado à porta de minha casa. O seu olhar, por si só, faz-me cair por terra. Uma cruel impotência que me curva enquanto o arrasto.

Pensei que realmente não era forte. Talvez demasiado sensível. Ou talvez fraco demais por não ser capaz de lhe minorar o sofrimento. E de repente lembro-me da conversa, da desilusão, sobravas tu, linda, mas havia um cão a morrer à minha porta e eu que faço, aquele projecto que não vinga, e agora, um destino ao meu lado que não posso alterar, não será demais?

Não, amiga…desculpa, hoje é mesmo tristeza. Mas amanhã será diferente, quanto mais não seja porque eu acredito que temos um coração de oiro e este mundo foi feito para nos sorrir, eu prometo :)

De outra maneira, como explicavas os anjos?
"A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade."
Suenens

segunda-feira, julho 10, 2006

Os 4 magníficos


Podia começar por dizer que os astros andam ao contrário, que está um calor do camandro ou que o fim do mundo se aproxima. Podia dizer que gosto de camarões grelhados e de correr no parque da cidade ao pôr-do-sol, ou que abomino a FIFA por dar a bola de ouro a um cabeçudo. Mas não. Hoje prefiro destacar 4 super heróis…

Reed Richards tem a capacidade de se esticar de tal forma que parece elástico; Ben Grimm possui força tão brutal que se diz ser como pedra; Sue Storm consegue ficar invisível quando quer e lhe apetece; Johnny Storm tem o poder de colocar o seu corpo em chamas a temperaturas normais… São super poderes que dão a estes tipos a capacidade de serem super heróis, defendendo o mundo dos vilões. E que até dão sempre jeito na cozinha ou mesmo para engatar miúdas.

Mas por muitos poderes ou imagem que possuam, aos Fantastic Four falta o espírito. Faltam as piadas malucas, a cultura do cartoon, as gargalhadas incontroláveis ou a animação constante. Não têm juristas, catahs, estrunfes ou aluadas…Não jantam em casas do século passado, não vêm charretes na baixa da invicta, não tomam café em sítios in, não dançam em espaços exíguos como se não houvesse amanhã e, coitados, sabem lá os desgraçados o que são matraquilhos…
É por isso que sinto pena deles. Porque ser magnífico é tudo isto mas muito mais, é defender os pobres dos bichinhos (os pardais não contam, por favor :P), voar baixinho nas ruas do Porto num super astra, mas também mostrar que as amizades são bonitas por serem assim, simples, como cada um de nós…

quarta-feira, julho 05, 2006

Um dia no centro de saúde

Hoje deu-me uma maluqueira na cabeça e deu-me para ir ao centro de saúde secar 3 horitas. Entre outras actividades de inegável interesse tais como ouvir mp3, coçar o ombro esquerdo ou bater suavemente com a cabeça na parede, dei por mim a deparar nessa fantástica personagem das nossas instituições públicas em geral e centros de saúde em particular, que é a MQMN, ou melhor, a “Mulherzinha Que Mete Nojo”.
Pois bem, para quem não sabe, a MQMN é uma personagem que se move com sagacidade na sala de espera do centro de saúde, utilizando a sua perspicácia para notar, e fazer notar, as agruras (:p) e disfunções (raríssimas, por sinal) do nosso SNS. Mas não satisfeita, a MQMN insiste não só em apenas notar, mas sim em vincar alto e bom som, junto de todos os utentes que a circundam, os motivos da sua tristeza, promovendo um clima de terror único que faz corar o mais corajoso dos indivíduos.
Desta forma, é comum ouvir-se a MQMN exclamar expressões como “Olhe lá, já passou a sua vez, já estão 8 à sua frente” ou “Agora esqueça, já só dá às 5 da tarde, pode ir embora”. Escusado será dizer que o povo exulta com tal poder de observação. A contribuição deste espécime para o bem-estar de uma sala de espera é de valorizar, ultrapassando inclusive em termos de popularidade o PIBTN (Puto Irritante que Berra por Tudo e por Nada) ou mesmo a MINCEPIBTN (Mãe Irritante que Não Consegue Educar o Puto Irritante que Berra por Tudo e por Nada).
Recomendaria portanto desta forma a todos os centros de saúde a prescrição de uma MQMN, para promoção de uma atmosfera agradável entre os utentes na sala de espera, por norma enfadonhos ou simplesmente doentes, e que assim teriam um excelente motivo para sair da monotonia e delirar com as frases filosóficas deste ser.
Se precisarem de MQMN contactem, por cá parecem haver de sobra…

(registo obtido in loco no CS PNF)
[que querem, tinha de passar o tempo de alguma maneira...]