sexta-feira, outubro 27, 2006

Sentiste?


Sentiste o mundo a parar?

As gotas da chuva que subitamente já não molhavam, as nuvens que agora já não corriam, a leve brisa do vento que por instantes cessou?

O momento de paz que se prolonga sem destino aparente, o pensamento que se afasta, para bem longe, para a terra do mar e dos luares brilhantes, das folhas secas decalcadas em cada passo teu, do bocadinho de céu deixado para trás pelos anjos em dia de pressa indevida…

Sei porque o sinto. Acabou-se o temor. Só porque algo acontece. Tu. Basta-me, envolve-me, engrandece-me, completa-me. Algures entre a indignação e a virtude…ou apenas entre o sentimento que permanece, imune a intempéries ou inundações mundanas, muito menos esse oceano…

Vejo as árvores de outra maneira, agora têm nome, personalidade, protegem-nos! A vida prega-nos cada partida… O beijo? :) sorrio, apenas. Quero que tudo seja assim… Um beijo, um sorriso, uma gota, um abraço, um sem número de acasos simples que esbocem esse trilho. Que a lua apareça em todas as noites. Que a água continue a correr, lentamente, nos rios. Que a terra, vista da lua, continue a ser azul…

O beijo? Sorrio, apenas…
PS.: este sol radioso…ou o poder do teu sorriso? ;)

sexta-feira, outubro 20, 2006

Dias...


dias

Aqueles dias em que se acorda ao contrário, virado para os astros do mal, amaldiçoando a chuva na vidraça que há bem pouco tempo nos afagava antes do sono…

Aqueles dias em que procura um rumo, se luta por esse reconhecimento, por essa festinha na alma que nos faça sentir melhor, se procura um sucesso firme, uma etapa verdadeira…

Os dias em que acordar não é mais do cumprir o piloto automático…

Valha-nos um recanto… A luz da lua, outra vez, as sombras de um encanto inesgotável, a beleza de uma alma tão pura que nos parece janela para o céu… Uma sorte que nos faz parecer indignos perante tamanha graciosidade…

Afinal acordei abençoado…afinal a chuva na vidraça mais não era que a antecâmara da tua visita, com o encanto de uma manhã de Outono, mais as folhas secas, o ambiente calmo e acolhedor, o gesto simples e afável, a ternura que só tu sabes oferecer…

“Will you still love me in the morning?”
“Forever and ever, babe…”

domingo, outubro 15, 2006

O talvez e o sacrifício


Tenho um banco no pátio em que me costumo sentar para escrever. Hoje lembrei-me do quanto havia já passado desde a última vez que o usara. Penso que talvez tenha mudado o meu sistema de orientações, de forma a que as divagações existenciais já não mereçam espaço privilegiado por entre as preocupações rotineiras ou os assuntos de amor que tanto enobrecem a alma. A mesma ordem de razões que me impedem de deixar escorrer aquele lado manhoso de temporadas passadas, de trago fácil e cigarrada à descrição, estórias contadas ao sabor de um cálice e de um discurso sentido. Talvez com propriedade possa dizer que me sinto velho. Talvez não esteja talhado para viver entre as preocupações mundanas da sociedade que nos acolhe. Ou talvez apenas não queira aceitar os sacrifícios como vivências quotidianas como toda a gente os vê. Talvez não olhe para o sacrifício como algo curriqueiro, porque na equação simples da vida sempre me habituei a olhar para ele apenas como um meio para atingir um fim. Um fim que mais não represente do que o inicio de uma nova luz, um fim que motive, que nos lembre o que fazemos por aqui, o objecto de uma existência. Um fim que nos orgulhe…e que nos trace um rumo. Dito assim, quase que aposto, ninguém lhe chama sacrifício

"Temos de renunciar ao mundo para o compreender."
Jean Grenier

segunda-feira, setembro 25, 2006

O momento...


Já viste estas nuvens? E as montanhas? E as luzes das casinhas perdidas no horizonte?
Eu sei, são bonitas…
Só dizes isso? Como podes ficar tão indiferente?
Conheço tudo isto, moro por cá…
Tens ideia da sorte que te assalta?
Talvez não, desconheço o meu rumo.
E não te preocupas?
Isso ser-me-ia completamente inútil.
Não posso acreditar! Apercebes-te tu da infinidade de coisas que te rodeiam? Dos pormenores que tornam a tua existência algo mais do que aprazível? Da aura que te acompanha para todo o lado para onde vais, como se de um anjo da guarda se tratasse? Acorda, vive, sente…A vida, não fundo, não passa de um momento.

"Pensa no momento. Todo o pensamento que perdura é contradição."

Marcel Schwob

segunda-feira, setembro 18, 2006

Os melhores momentos do amor


"Nos transportes do amor, na conversa com a amada, nos favores que recebes dela, até nos mais extremos, vais mais em busca da felicidade do que à tentação de provar isso de que o teu coração agitado sente uma grande falta, um não-sei-quê de menos do que ele esperava, um desejo de algo, mesmo de muito mais. Os melhores momentos do amor são aqueles de uma tranquila e doce melancolia em que choras e não sabes porquê, e te resignas quase na quietude a um infortúnio que desconheces. Nessa quietude, a tua alma está quase cumulada, e quase sente o gosto da felicidade. Assim como no amor, que é o estado da alma mais rico de prazeres e ilusões, a melhor parte, a via mais correcta para o prazer e para uma sombra de felicidade é a dor."

Giacomo Leopardi, in 'Pensamentos Diversos'

domingo, setembro 10, 2006

Confissões de uma mente perigosa...


Os momentos de reflexão têm destas coisas, a de por vezes nos mostrarem as nossas burrices. Gostava ter começado aqui de outra forma. A sério que sim. Acho que a origem deste quadro de registos merecia outra coisa. Mas tal como não podes fugir dos teus próprios medos, também eu por vezes me sinto incapaz de tornear os meus defeitos. Está claro que nunca irei conseguir ser tão bom como tu. Estás nos píncaros de tudo o que a bondade pode significar. Eu limito-me a seguir os trâmites desta vida que me persegue a cada dia que passa. Tomo as decisões em função do que penso ser correcto. Meço o meu ego, encho-o à custa de calculismos fúteis e sigo a minha vida, esquecendo-me muitas vezes do maior raio de luz que entrou na minha alma desde que o sol voltou a sorrir. Sou egoísta e insensível, e pior do que isto, integro-o como algo aceitável. Oxalá o mundo fosse um lugar mais simples. Podia clamar-se por justiça, como se de uma heroína se tratasse, para repor no coração de quem o merece o carinho que constantemente dá. Mas o mundo não é assim tão simples, nem eu, e por isso tenho medo. Medo do mundo, medo das coisas…no fundo, medo de mim.
09/09/06
algures entre Amarante e Penafiel

terça-feira, setembro 05, 2006

Só mais um post(e)


Enquanto deambulava ontem pelos Correios, não consegui deixar de reparar na vasta colecção de obras literárias que se acomodavam nas estantes. Livros de auto-ajuda, o livro de S. Cipriano em versão resumida, romances de trazer por casa… Dei por mim a pensar nessa coisa estranha que é a motivação pela escrita, ou os momentos de inspiração que a acompanham com indesmentível coerência. É coisa que nasce com a pessoa? É coisa inconstante, que aparece e desaparece sem aviso? Se nasce connosco porque vai embora de vez em quando? E se não é constante, então como sabemos quando a esperar? Enfim...

Vinha isto a propósito desta prolongada ausência de post(e)s. Tinha acabado, pela altura em questão, de cumprir a minha obrigação diária de fazer alguma coisa por mim próprio. Mais do que uma questão de auto-comiseração, faz-me dormir descansado. A sensação do dever cumprido ou a pequena ilusão de que uma simples carta poderá dar um novo rumo à nossa vida…

Adiante. Se há coisa que me acalma são as paisagens do campo da Belavista. Os calorosos cumprimentos do sr. António são já banalidade carinhosa, atestados de incompetência profissional é que não. Reajo firme e sigo em frente com vigor.

Segue-se uma “piscinada” relaxante (eu e os neologismos, que se há-de fazer…). Assim dá gosto misturar trabalho com lazer… De regresso a casa a confirmação de uma constatação há muito conhecida: o calor impede-me de funcionar correctamente. Devia ter nascido com uma etiqueta no pescoço, bem visível, que dissesse “manter a temperaturas abaixo dos 30º, em caso de avaria meter num avião e enviar para as Maldivas, mas com carinho”.

Chegas hoje. Não faz mal. No fundo no fundo, nunca de cá saíste.

PS.: Só mesmo para escrever mais um post(e).

sexta-feira, agosto 11, 2006

O teu dia


Escrevo-te hoje porque é o teu dia.

Porque hoje mereces ser lembrada do quanto tens de bom, do quanto ofereces todos os dias a todos os que te rodeiam, do quanto melhoras este universo desde o dia em que nasceste.

Mas também…

Porque mais do que nunca há um sentimento especial que surge
Como a doçura das manhãs que nos abraçaram
Ou a brisa da enseada que nos afagou
O toque, a caminhada, o intimismo puro

Ou um simples pôr-do-sol por entre as montanhas
Só suplantado pelo meu melhor cenário…
Tu…

Parabéns :)

***

quinta-feira, agosto 03, 2006

Meus lindos olhos



Meus lindos olhos,
qual pequeno Deus
Pois são divinos,
de tão belos os teus.

Quem tos pintou,
com tal condão
Jamais neles sonhou
criar tanta imensidão.

De oiro celeste,
Filhos de uma chama agreste
Astros que o alto céu revestem
E onde a tua história é escrita.

Meus lindos olhos, de lua cheia
Um esquecido do outro,
a brilhar p’rá rua inteira.

Quem não conhece teu triste fado
Não desvenda em teu riso
um chorar tão magoado.

Perdões perdidos
Num murmúrio desolado
Quando o réu morava ao lado
Mais cruel não pode ser.

Este fado que aqui canto
Inspirou-se só em ti
Tu que nasces e renasces
Sempre que algo morre em ti

Quem me dera poder cantar
Horas, dias, tão sem fim
Quando pedes só para mim
Por favor só mais um fado.

Mafalda Arnauth

sexta-feira, julho 28, 2006

Já que estamos numa de cinema...


Permita-me o sr. Jorge Silva, do 7arte.net, colocar aqui a sua crónica ao "Fiel Jardineiro", do genial Fernando Meirelles ("Cidade de Deus"), com a qual concordo em pleno. Não me ocorre a colocação de adendas, a não ser o reforço da qualidade deste filme, que mistura uma das mais belas histórias de amor já vistas com um enredo bem mais que simplesmente razoável, conotado de uma moralidade que nos toca e deixa a pensar. A forma como Meirelles filma o continente africano e a crueldade das suas ruas é brilhante, como o já havia sido nas favelas brasileiras, com esse soberbo extra que são as paisagens quenianas. Apaixonante...
"Porque o amor é aquilo que mais vale a pena e salvar uma pessoa é salvar o mundo inteiro, vale muito a pena ver «O Fiel Jardineiro».
Narrativa que imbrica a história de amor entre Justin (magnífico Ralph Fiennes, de uma contenção à prova de bala) e Tessa (bela e ambígua Rachel Weisz) com a intriga global composta pela promiscuidade entre a indústria farmacêutica e a diplomacia britânica, este é um feliz exemplo do casamento entre a diversão e a reflexão. E há duas coisas particularmente comoventes neste filme. A primeira é a forma como dá a ver as vidas com diferentes preços: África surge como um continente maldito permanentemente colonizado (transformando-se a antiga colonização política numa neo-colonização económica). Uma vida no Quénia vale muito pouco e poucos se importam com isso (eles são tantos que, se não os podemos ajudar a todos, mais vale não ajudarmos nenhum.). A segunda é a maneira como Justin vai acabar por completar o trabalho da sua mulher na ausência dela. É nessa viagem também de auto-descoberta que, vendo as coisas com os próprios olhos, Justin percebe melhor a mulher e acaba por partilhar o seu ponto de vista. É, no fundo, através da reconstituição da vida (algo secreta) dela que ele acaba por sublimar o amor entre os dois.
Trata-se de um importante relato global dos nossos iníquos tempos que se torna particularmente emotivo por não existir fora das convulsões particulares de cada ser humano. Que isto resulte da adaptação de uma obra de John Le Carré por parte de um cineasta brasileiro como Fernando Meirelles é, no mínimo, surpreendente. E que bela banda-sonora de Alberto Iglesias."
Jorge Silva
PS.: Eu já era fan de Rachel Weisz. Agora...
PS parte II: Permite-me o desabafo, já sabes que continuas a ser a minha activista preferida ;)

Charlie e a fábrica de chocolate


Já havia ficado a ideia desde o fantástico Big Fish, mas de Tim Burton, para além das imagens, da criatividade, da banda sonora (Danny Elfman em grande, como sempre), das ideias ou da imaginação, o que realmente salta à vista é aquela extraordinária maneira de contar histórias, como se de um conto da vida se tratasse. Simplesmente excelente.

domingo, julho 16, 2006

All mine


All the stars may shine bright,
All the clouds may be white,
But when you smile,
Oh how I feel so good,
That I can hardly wait
To hold you,
Enfold you,
Never enough,
Render your heart to me.
All mine,
You have to be
From that cloud, number nine,
Danger starts the sharp incline,
And such sad regrets,
Oh as those starry skies,
As they swiftly fall.
Make no mistake,
You shan't escape,
Tethered and tied,
There's nowhere to hide from me.
All mine,
You have to be
So don't resist,
We shall exist
Until the day,
Until the day, I die.
All mine,
You have to be
All mine - Portishead

quarta-feira, julho 12, 2006

Melancolia?


Melancolia?
Perguntava eu a recente amiga de smiles incontáveis e "super poderes".
A resposta saiu indefinida, como que a medo, mas percebi claramente que era um sim. Porque só daquela forma fazia sentido. Porque só assim se justificava aquele bucolismo, aquela tristeza que emanava de bons momentos passados…

Terei acabado o dia de hoje melancólico?

Houve uma manhã de pasmaceira e um início de tarde quente, sufocante, daqueles que empurra o corpo para uma inoportuna inércia. Houve depois conversa com alguém respeitável. De homem para aprendiz de homem, ou de dois simples seres que buscam o âmago da vida como objectivo uno de uma existência. [também eu quero um dia ir ao México ver os templos Aztecas] Aprendi, aprendo sempre. Como absorver verdades que tolhem sob o signo da frieza, como ser realista em mundo de subterfúgios, como ver a vida em ciência…ou simples caminho predestinado.

Pensei que depois fosse ter uma boa notícia. Saiu uma desilusão.

Vieste então tu com encantos de anjo, aquele olhar vivo que me fez apaixonar, uma saia redonda da cor da lua…Um cenário ameno, um jantar de modos simples, o prazer de uma verdadeira companhia…Portishead, um filme ligeiro, não, jamais te trataria como aquele palhaço, aperto-te a mão com mais força, apetecia-me dizer ao mundo o quanto era bom estar ao teu lado, o quanto me parecias bela naquela noite…

[Sabes, hoje coloquei a tua fotografia mais bonita no pass-partout que me deste]

Corro para casa, amargurado por esse peso que me amordaçava, na esperança de que o papel me aconselhasse nessa missão tardia…

Há um animal prostrado à porta de minha casa. O seu olhar, por si só, faz-me cair por terra. Uma cruel impotência que me curva enquanto o arrasto.

Pensei que realmente não era forte. Talvez demasiado sensível. Ou talvez fraco demais por não ser capaz de lhe minorar o sofrimento. E de repente lembro-me da conversa, da desilusão, sobravas tu, linda, mas havia um cão a morrer à minha porta e eu que faço, aquele projecto que não vinga, e agora, um destino ao meu lado que não posso alterar, não será demais?

Não, amiga…desculpa, hoje é mesmo tristeza. Mas amanhã será diferente, quanto mais não seja porque eu acredito que temos um coração de oiro e este mundo foi feito para nos sorrir, eu prometo :)

De outra maneira, como explicavas os anjos?
"A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade."
Suenens

segunda-feira, julho 10, 2006

Os 4 magníficos


Podia começar por dizer que os astros andam ao contrário, que está um calor do camandro ou que o fim do mundo se aproxima. Podia dizer que gosto de camarões grelhados e de correr no parque da cidade ao pôr-do-sol, ou que abomino a FIFA por dar a bola de ouro a um cabeçudo. Mas não. Hoje prefiro destacar 4 super heróis…

Reed Richards tem a capacidade de se esticar de tal forma que parece elástico; Ben Grimm possui força tão brutal que se diz ser como pedra; Sue Storm consegue ficar invisível quando quer e lhe apetece; Johnny Storm tem o poder de colocar o seu corpo em chamas a temperaturas normais… São super poderes que dão a estes tipos a capacidade de serem super heróis, defendendo o mundo dos vilões. E que até dão sempre jeito na cozinha ou mesmo para engatar miúdas.

Mas por muitos poderes ou imagem que possuam, aos Fantastic Four falta o espírito. Faltam as piadas malucas, a cultura do cartoon, as gargalhadas incontroláveis ou a animação constante. Não têm juristas, catahs, estrunfes ou aluadas…Não jantam em casas do século passado, não vêm charretes na baixa da invicta, não tomam café em sítios in, não dançam em espaços exíguos como se não houvesse amanhã e, coitados, sabem lá os desgraçados o que são matraquilhos…
É por isso que sinto pena deles. Porque ser magnífico é tudo isto mas muito mais, é defender os pobres dos bichinhos (os pardais não contam, por favor :P), voar baixinho nas ruas do Porto num super astra, mas também mostrar que as amizades são bonitas por serem assim, simples, como cada um de nós…

quarta-feira, julho 05, 2006

Um dia no centro de saúde

Hoje deu-me uma maluqueira na cabeça e deu-me para ir ao centro de saúde secar 3 horitas. Entre outras actividades de inegável interesse tais como ouvir mp3, coçar o ombro esquerdo ou bater suavemente com a cabeça na parede, dei por mim a deparar nessa fantástica personagem das nossas instituições públicas em geral e centros de saúde em particular, que é a MQMN, ou melhor, a “Mulherzinha Que Mete Nojo”.
Pois bem, para quem não sabe, a MQMN é uma personagem que se move com sagacidade na sala de espera do centro de saúde, utilizando a sua perspicácia para notar, e fazer notar, as agruras (:p) e disfunções (raríssimas, por sinal) do nosso SNS. Mas não satisfeita, a MQMN insiste não só em apenas notar, mas sim em vincar alto e bom som, junto de todos os utentes que a circundam, os motivos da sua tristeza, promovendo um clima de terror único que faz corar o mais corajoso dos indivíduos.
Desta forma, é comum ouvir-se a MQMN exclamar expressões como “Olhe lá, já passou a sua vez, já estão 8 à sua frente” ou “Agora esqueça, já só dá às 5 da tarde, pode ir embora”. Escusado será dizer que o povo exulta com tal poder de observação. A contribuição deste espécime para o bem-estar de uma sala de espera é de valorizar, ultrapassando inclusive em termos de popularidade o PIBTN (Puto Irritante que Berra por Tudo e por Nada) ou mesmo a MINCEPIBTN (Mãe Irritante que Não Consegue Educar o Puto Irritante que Berra por Tudo e por Nada).
Recomendaria portanto desta forma a todos os centros de saúde a prescrição de uma MQMN, para promoção de uma atmosfera agradável entre os utentes na sala de espera, por norma enfadonhos ou simplesmente doentes, e que assim teriam um excelente motivo para sair da monotonia e delirar com as frases filosóficas deste ser.
Se precisarem de MQMN contactem, por cá parecem haver de sobra…

(registo obtido in loco no CS PNF)
[que querem, tinha de passar o tempo de alguma maneira...]

segunda-feira, junho 26, 2006

( foto gentilmente cedida por nexinha)

Era ténue, por aquela hora, a linha do horizonte que surgia ao final do olhar, perdido em imagens de sossego, suaves contradições de um dia que tinha decidido nascer ao contrário. Há baús que existem para não serem abertos, mas cujo simples relance pela fechadura pode causar arrepios na espinha, ao jeito de quem mexe naquela peça de cerâmica com pó de anos, sagrado pela inviolabilidade que ostenta e invoca respeito. Lembrar era dor, desassossego, ramo seco de uma árvore que crescia agora com vigor nunca antes visto.
Afagou a almofada. Momentos há em que a alma nos foge, procuramo-la na dor, na voz, na solidão, no pensamento, mas tudo o que surge é um nada que não se explica, uma razão que tolhe, e sobramos nós… numa fragilidade imensa, uma exposição que empobrece, o fantasma que persegue, a ambição que se perde por um sopro…e o desabafo…porquê ser assim?


[…se há alguém que nos segue com tamanho rasto de beleza]


"Há uma espécie de prazer na lamentação, e maior do que aquilo que se pensa."

Marie Sévigné

domingo, junho 25, 2006

Sejamos preguiçosos :p


“Sejamos preguiçosos em tudo, excepto em beber e amar, excepto em sermos preguiçosos.”

Tropecei nesta frase em revista de inegável qualidade, e registei com agrado a consistente crónica que se lhe seguia. Em sociedade maniqueísta em que o trabalho é elevado à mais suprema condição existencial, o ócio é encarado como inimigo indesejável, hediondo, estranhamente desassociado das coisas boas da vida. Um princípio que tardo a perceber. E com isso um retardamento na colagem ao ritmo da sociedade que por vezes chateia. É estúpido. Tudo faria mais sentido se fosse a sociedade a colar-se a nós...

É domingo. Portugal joga. Alguns pobres desgraçados gastam os últimos trocos na camisola da selecção só para não destoarem da ridícula onda tuga que só aparece nesta altura. Por favor não me saturem de futebol. Eu que tanto aprecio o desporto pelo aquilo que ele é, que representa, pelas fintas, pelos golos, pelo espectáculo que proporciona. Porque pura e simplesmente não quero chegar a casa, depois das emoções daquele grande jogo que mesmo agora acabou, e gramar pela enésima vez as respostas monocórdicas do 3.º guarda-redes ou do treinador-adjunto. Ou os directos das sardinhadas. Ou a entrevista ao primo do sobrinho do defesa-direito. Ou o Cristiano a dar toques com umas meias...tenham dó…

Por falar nisso, viram o golo do Maxi?
Confirmei as expectativas. Uma Suécia que fica por onde tem ficado, uma Alemanha multi-dinâmica (que espectáculo a combinação Klose-Podolski), uma Argentina que me surpreende por não conseguir desmontar mais cedo a teia mexicana, mas que acaba por usufruir também ela do talento de uma das suas muitas estrelas.
Na 3.ª jornada um Brasil algo mais solto, com um pançudo que para mim não jogaria, mas que importa, que marca e põe o povo feliz (mas será que qualquer um outro no seu lugar não marcaria também, se calhar ainda mais golos, com superior entreajuda no jogo de equipa?), uma Itália que ganha força (já só parará nas meias ou até na final), uma República Checa que confirma a falta de Koller…Ah, e um árbitro que mostra 3 amarelos... Isto nem no Rio-de-Moinhos...
Portugal jogou bem uma parte. Muito bem, aliás. Depois (re)demonstrou insegurança defensiva, mas acaba por ganhar. Tal e qual como as grandes equipas o fazem.

De resto, pensa-se… Para quê, alguém me explica?

terça-feira, junho 20, 2006

Vamos lá falar de bola… (se o Marcelo pode, porque não posso eu também?)


Um mundial de futebol é um acontecimento grandioso. Todo o mundo desportivo pára e fazem-se directos anedóticos, toda a gente comenta e toda a gente é portuguesa, porque durante o resto do ano não sabemos que temos uma bandeira verde e vermelha ou vivemos todos nas Antilhas...

Adiante. Por entre os resumos da rtp, os (infelizmente poucos) jogos da sic, ou os pixels do “tvu” tenho conseguido acompanhar razoavelmente os jogos, com principal destaque, claro está, para a nossa selecção e (outros??) teóricos candidatos à vitória final.

Desde logo o jogo de abertura como prenúncio, este teria de ser um bom mundial. O fantástico golo de Lahm, aos cinco minutos de um desafio imprevisivelmente aberto e emocionante, como que a adivinhar aquela que para mim tem sido a marca mais inexorável deste mundial, a surpreendente frequência de grandes golos. Frings, à bomba, ainda antes do final do jogo, confirmá-lo-ia com clareza.

Agora a análise. Concluída que está a 2.ª jornada, permitam-me destacar meia dúzia de pontos (ou equipas, ou jogadores, ou qualquer coisa relacionada). Desde logo essa equipa da casa, em tempos crónica devoradora de mundiais, hoje arrojada aposta de renovação pessoal de Klinsmann, com futebol menos geométrico e mais embelezado, com dinâmica de gente nova mas sem a tradicional frieza e eficácia germânicas. Espectacular Lahm, um jovem defesa-esquerdo (ou será extremo?) de grande acutilância, muito bom também Podolsky ou Schweinsteiger, representando o que de melhor o futebol germânico tem produzido nos últimos anos. Mas o grande trunfo de outrora já não existe. Apesar de o 12.º jogador ser mais valia, já não se pode dizer “são 11 contra 11 e a Alemanha ganha no fim”.

A Inglaterra surge consistente. Sempre duvidei da capacidade desta selecção sem a imprevisibilidade de Rooney, mas como a câmara de O2 parece ter feito um pequeno milagre, parece-me que teremos que contar com estes srs pelo menos ate aos quartos. Não encontro melhor equipa a defender (Terry, Rio, Cole…, ainda por cima tão bem “oleados”), e quem tem Lampard ou Gerrard para a meia distância pode dar-se ao luxo de meter estacas lá na frente que qualquer coisa se arranja sempre…

A Suécia desilude. Ibrahimovic paga o preço da fama e os golos falhados também, a forma sofrida com que arrancou os 4 pontos não me deixa grande esperança para alem dos oitavos.

A Holanda tem bons jogadores. Sempre teve. Mais uma aposta arrojada de um jovem treinador, Van Basten, com um cunho bem marcado de ataque rápido e aposta decisiva no talento dos dois alas, Robben e Van Persie. Mas há um problema chamado meio campo. Cocu, Sneijer ou V.Bommel não são grandes recuperadores e têm excessiva tendência a recuar, deixando demasiado espaço entre linhas. Robben está em grande forma (quiçá o jogador individualmente mais em destaque até agora), V. Persie tem coadjuvado, mas a questão é simples, se a bola não lhes chega não parecem haver alternativas, e Van Nistelrooy assim parece não existir. A Costa do Marfim comprovou-o, abrindo auto-estradas pela zona central e encostando os laranjas à parede na parte final. Espero que os tugas os apanhem nos oitavos, teríamos excelentes hipóteses.

A Argentina…é a Argentina. Sempre adorei a forma de jogar desta selecção, por isso sou suspeito, e só tenho mesmo pena de não poder ter visto todo o jogo contra a Servia. Não nos esqueçamos que os ex-jugoslavos só tinham sofrido um golo na fase de qualificação. O golo de Cambiasso é de antologia, a cueca de Tevez ou o talento de Messi pura magia. E estes ficam no banco. Não nos esqueçamos que a Argentina, ao contrario do Brasil por exemplo (a comparação é inevitável), tem um verdadeiro carrossel, de jogadores quase todos ambientados às exigências do futebol europeu. Se não acusarem a pressão de Maradona’s ou companhia limitada, são, para felicidade minha, fortíssimos candidatos à vitória.

O Brasil tem jogado mal, toda a gente tem visto. Mas tem 6 pontos e a qualificação garantida. E tem Ronaldinho. E tem Adriano. E um Ronaldo pançudo, é verdade (alguém explica ao Parreira que jogar com 10 dá vantagem ao adversário?). Mas tem Kaká, e a andar de mota. E tem um Emerson muito preso…Mas tem um Zé Roberto todo o terreno. E até um Robinho que quando entra mexe com tudo. E mais Roberto, Juninho, Fred, Ricardinho…Enfim, da defesa não falo, parece sempre uma ninharia comparada com o ataque. Da táctica também não vale a pena falar, aquelas alas são avenidas para o adversário atacar, então se os médios centro vêm compensar abrem-se mais umas ruelas ao meio, hajam equipas que o explorem…Mas que importa tudo isto, se basta meio metro de espaço e há golo? O Brasil continua a ser, para mim, por isso mesmo, o principal favorito. Não importa se não é equipa, é “jogadores” e isso basta. A equipa virá porventura com a motivação de um jogo verdadeiramente grande, e se aparecer…

A França não existe. Desde que Coupet fugiu do estágio nos Alpes. E mesmo que existisse, não o merecia. Porque não se pode insistir na 3ª idade e deixar Trezeguet constantemente no banco.

A República Checa prometeu. E muito. Com um Rosicky soberbo, ou um Nedved, Koller, Poborsky, velhos conhecidos numa equipa há muito (bem) construída. O problema é o resto. Não há alternativas credíveis à inegável qualidade destes jogadores e isso paga-se. Espero com atenção para ver o 3º jogo.

O Gana surge como a mais agradável surpresa. Sempre apostei na Costa do Marfim como equipa africana a vingar, mas o tal grupo da morte (que afinal não o era) mais a desilusão Drogba deitaram tudo a perder. O Gana de Essien e Appiah (grandíssimos centro campistas) fez a partida da sua história contra a Rep. Checa, mas não confio muito que o elan permaneça, tanto mais que neste tipo de equipas o talento surge muitas vezes associado à ingenuidade.

À Itália faltará porventura o que Scolari constrói com Portugal, que é o grupo. Todos os anos vejo N de jogadores novos a entrar no grupo (ninguém duvida da sua qualidade, é um facto), mas nada de novo a evoluir. É crónica candidata, sempre, mas não está desta vez tão forte, parece óbvio. Apesar disso, parece-me ser das poucas equipas que poderia surpreender o Brasil. E a partir daí a motivação também seria outra… A ver vamos o que nos reserva esta última jornada com esse interessantíssimo Rep. Checa-Itália.

A Espanha tem mostrado o futebol mais entusiasmante. Contra uma Ucrânia tenrinha saltou-me à vista o sentido posicional e a excelente capacidade de troca de bola do meio campo (quem diria que Senna ficaria tão bem de vermelho). Que Villa é um dos jogadores espanhóis do momento já o sabia, que Torres tem tudo para ser um dos melhores do mundo também já, que esta equipa o consiga demonstrar numa fase final isso já é novidade. Pelo menos desta vez parece mais candidata. A reviravolta contra a Tunísia deu a moral que se precisava e restituiu Raul. E com bom futebol, o que é de louvar.

Para finalizar a nossa selecção. Não esperava grande coisa, confesso, principalmente pela estupidez e teimosia exacerbadas de Scolari, mas é inegável a mais valia do “clube” que o sargentão criou para este tipo de competições. Para além disso as outras equipas do grupo, sejamos honestos, são relativamente fracas quando comparadas com outras que se vêm por aí. Daí que contra Angola a vitória, embora sem brilho, tenha sido perfeitamente normal e não tenha aumentado minimamente o meu entusiasmo.
Mas contra o Irão a história foi diferente. Esta equipa, ao contrário de Zé Calanga e companhia, pode ser realmente chata, e só um Portugal a um bom nível a podia ter ultrapassado.
Reentusiasmei-me. Surpreende-me o óptimo momento de Figo (e que jeito nos dá), a frescura física de Nuno Valente ou Costinha (sim, porque o resto nunca esteve em causa). Junte-se o regresso do dinamismo dos dois toques de Maniche, a acutilância de Miguel ou a magia de Deco (ainda que a meio gás) e temos selecção. Só me assusta a lentidão e falta de entrosamento de Meira (que foi aquilo no lance de Ashemian?) ou as criancices de Cristiano. Se não estiver sempre excitado por mostrar novas fintas à Merche é de facto um dos melhores do mundo, mas parece-me que o golo o tranquilizou. Espero que sim, bem como espero que Pauleta consiga entrar no ritmo, ele que estranhamente parece andar ao contrário do resto da equipa, quando joga bem os companheiros não correspondem, quando a máquina está bem oleada o ciclone nem uma rajada mostra…

Enfim, espero que venha a Holanda. Aí teremos boas hipóteses de cumprir o objectivo de fazer jus ao ranking. Mas desenganem-se, não somos candidatos…

De resto que o bom futebol e os grandes golos permaneçam. Há quem se queixe da falta de surpresas até ao momento, mas vejamos as coisas pelo lado positivo, isto permitirá excelentes emparelhamentos para as eliminatórias. E com isto calo-me, nunca fiz um post tão grande eheh...

Uma palavra para ti…

Procuro desenfreadamente as palavras certas, mas em vão…Sinto que tudo o que possa dizer sobre ti soa a inócuo perante tamanha demonstração de graciosidade. Perdoa-me se me deixo levar, perdoa-me pela inábil subtileza com que deixo escorrer os sentimentos, mas lembra-te que há ensinamentos só possíveis de apreender nestas curvas sinuosas da vida…

As palavras são antigas, mas continuam a fazer todo o sentido. Há ensinamentos que busco a cada dia que passa, e que sem a tua ajuda me seria impossível alcançar. Desculpa-me se complico, desculpa-me se penso, mas lembra-te que aprendo, e com isso vejo o teu sorriso cada vez com mais luz...

[viste como foste capaz de mudar a minha disposição?]

Tens toda a razão…Para saber amar há que aprender a estar sozinho…

PS.: desculpa as imperfeições do desenho, talvez seja eu isto mesmo…Imperfeito mas dedicado :)

domingo, junho 18, 2006

Love Show

Sit down, give me your hand
I'm gonna tell you the future
I see you, living happily
With somebody who really suits ya
Someone like me

Stand still. Breath in
Are you listening?

You don't know
Somebody's aching. Keeping it all in
Somebody won't let go of his heart but the truth is
It's painless
Letting your love show

Break down. Give me some time
I don't want the fear to confuse ya
Right now, it's so wrong
But maybe it's all in the future with
Someone like you

Stand still. Breath in
Are you listening?

You don't know
Somebody's aching. Keeping it all in
Somebody won't let go of his heart but the truth is
It's painless
Letting your love show

Maybe truth, maybe lies
Made me want you
Maybe dumb, maybe wise...? I don't know

Somebody's aching. Keeping it all in
Somebody won't let go of his heart but the truth is
It's painless
Letting your love show
You don't know
Somebody's hurting. Holding it all in
Somebody can't let go of his heart but the truth is
It's painless
Letting your love show

Love show
Letting your love show

Skye - Love show

sábado, junho 10, 2006

Ponto da situação


Ponto da situação…

Ou a simples crónica de quem vê com prazer o escapar das palavras

Boa onda a noite de ontem. Os finos do coffee, os killers, o toque do nokia da bolsinha, filosofias de quem está em grande nível, aquele elan sempre presente de Valadares, o sonho dos BMW’s e dos cifrões arredondados…

E por falar nisso…

Houve há dias tarde de sonho, com tonalidades esbatidas num céu de luz poente, em cenário de areias doces, velas de fino retoque ou poemas espalhados pelas paredes… O riso que surge como saudável hábito, um livro que se esconde com mestria, um smile de pimenta :) ou o crepe de chocolate que emudece, um mundo para além do desenho animado que se compartilha ao som de uma gargalhada…

(lembrei-me do quanto eras bonita…)

As banalidades sucedem-se depois ao seu fiel ritmo rotineiro.
Sonho também, mas a dormiscar, que acordo e ouço finalmente a minha avó a chamar por mim como se o presente não fosse nada… Antes não estivesse a dormir.

Acordo hoje desatinado (começo a acreditar que as minhas noites de sono contêm histórias que nem eu próprio deslindo…). Um jogo de futebol, o reencontro com os rapazes do futebol, aqueles mesmo, que só reconheço nas tardes de sábado, a risota e o golo de calcanhar…

E por falar nisso, viram o golo do Frings? E os anedóticos directos da Alemanha? eheh, esse é que é o meu mundial...

Mais banalidades… Leio mas sinto-me incapaz de seguir o método. Prefiro testar certas teorias:

“O espírito diz coisas deveras belas, mas só faz banalidades.”

Denis Diderot

PS.: Segue-se o tradicional sábado à noite. Sim, mais um sábado à noite…

domingo, junho 04, 2006

Um dia passado...


Ontem fui para o quarto a pensar que queria desta vez escrever algo sobre coisas mundanas, uma rotina, ou o simples acumular de gestos de mais um dia passado.
Pois então posso começar por dizer que iniciei o dia a pensar na impossibilidade da perfeição. Sim, dito desta forma soa a estupidamente lógico tendo em conta a minha forma de pensar (se há coisa que o síndrome da Alice ensinou…), mas falo simplesmente no quanto o simples facto de querermos ser bons nos pode às vezes coibir, cegar, sufocar ao ponto de nos tornar, nem que seja apenas por momentos, em cinicamente maus…

Continuei o dia a pensar em profissionalismo. Em trocar gesto de lazer por trabalho fortuito, mas surpreendentemente proveitoso. Na tranquilidade de um futuro estável. Depois a tristeza… Do quanto custa sentirmo-nos incapazes de alterar o futuro de alguém próximo, ou mais que isso, um presente que incomoda. Do quanto custa enfrentar os nossos próprios medos, do quanto às vezes a vontade não chega se estes insistem em importunar. E mais uma vez o lembrete… Não se pode ser assim tão bom…

À tarde a ansiedade. Perfeitamente escusada.

Uma rotina de algum tempo, os miúdos a correrem na poeira de Verão, um jogo interrompido pela ambulância do INEM, uma imagem que choca, a fugaz derivação da mente pelo mundo das vocações, porque se o sou (deveria sê-lo?) não o sou o suficiente, se o não sou não faço sentido, se o ainda serei custa esperar…
Uma viagem com a mão à janela cortando o vento, ouvir na rádio o som da Bela Vista e um sorriso que surge…só de pensar que há alguém que eu quero sentir feliz…o esteja realmente…

Vem a noite. Há mais um jogo, mais uma viagem. Uma pequena desilusão entrecortada por reencontros felizes… Mais uma vez, porquê a ansiedade?
Ok, sempre valeu a pena vir cá, pelo menos há projectos que saem enriquecidos. Ouço piadas brejeiras, o mundo do gel e das minis que se engolem até cair.

Escapo-me, isto não é para mim.

Ouço a rádio, vejo a TV.
Mais conversas profissionais. O projecto é viável? Sim, claro, tem que ser, vai ser, não esqueçamos os BMW’s, os Porsches, a rede de clínicas, a conta recheada, o ministro da fisioterapia, né Dani?
Ouço exemplo feliz de romantismo. Confirma-se, ainda não sou suficientemente bom.

Acabo a escutar Red Hot como nunca. Com um sorriso de orelha a orelha que nem é preciso explicar.

É bom adormecer e pensar:

não sabes o bem que me fizeste…

sábado, junho 03, 2006

Mantenha-se...


Dias há em que a disposição é disforme, contrária a um mundo que rola em carris dourados, empurrada por ventos e demais brisas que o sol acarinha com tons de afecto. Sentem-se as agruras (?), serão asperezas, severidades (???) de impossível reactividade, um som algures que toca, ou a simples imagem que perdura na mente roçando o incerto…

Há reencontros, há o ânimo, o desânimo, o ressalto que nos atira para a frente desafiando medos passados, a evolução (sim, essa que insisto em trazer à tona), um meandro que divaga (e que acaba), uma ponta de satisfação, mas logo a saudade…
Porque raio me esqueci dos apontamentos do Palácio…

Há o sentido de altruísmo (tê-lo-ei aprendido contigo? Ou simples dissimulação de egoísmo mal curado?), a interrogação perene, a incerteza do futuro e um optimismo…Forma de vida, talvez, mas que importa, está lá, mantenham-no por favor, que às vezes a alma é demasiado pequena…

Mantenhas-te tu…

Há solidariedade (serei capaz de a interpretar? Não me ensinaste ainda essa parte, fica para depois do altruísmo, claro, já o devia saber), um telemóvel que falha e me deixa doido, porque senti por momentos esse laço azul interrompido e…

Há sacrifício, isso sim, porque a consciência o dita, e agora, mais do que nunca, mais do que tudo, mais do que o coração algum dia o tenha aconselhado, há alguém que o merece…

Mantenha-se a lua…porque ao contrário do que o povo diz por aí, a lua para mim nunca mente…

domingo, maio 28, 2006

Palma de Sta Rita...



Agora que este espaço de "escarrapachanço" da alma celebra o seu primeiro ano, torna-se engraçado olhar para trás no tempo e perceber como as coisas mudam, como o estado de espírito se altera, como a alma se engrandece e nos torna mais próximos um bocadinho daquilo que um dia imagináramos atingir…

E perceber que não se pode perder sempre…
Que os verdadeiros amigos estão lá para as ocasiões…
Que são as pequenas coisas que valem sempre a pena…

E perceber que há pessoas especiais…
...que nos tornam pessoas melhores

E perceber que há um bom motivo para sorrir ao acordar…
Perceber que há gestos que significarão sempre muito mais que o resultado
...Mas todo um mundo azul iluminado pela lua
...Que gira a cada passo teu…

E assim…

É oportuno relembrar uma flor…

E oportuno relembrar uma frase que continua a fazer todo o sentido…

“Uma flor pode não significar nada, uma palavra não significar muito, mas um gesto pode significar todo um mundo, e um sentimento…o Universo…”

Astolfo 06'

Happy Birthday...

Caros amigos blogosféricos, e todos aqueles que se enganaram na página, assinala-se hoje com todo o propósito o primeiro aniversário do Lugar do Corgo. Sim, o blog, que a morada já cá está há alguns anitos (desculpem a piada fácil, está calor e não me apetece pensar muito). Isto seria por si só motivo para mais um post. Mas não. É também o celebrar de um bom hábito, o de escarrapachar para aqui o que vai na alma, comentar ou ser comentado, mas acima de tudo perceber que há por aí bons amigos...e muito mais que simples blogosféricos. Ah, e claro, significa também...que há iniciativas que vale a pena copiar...Obrigado.

quinta-feira, maio 25, 2006

Da Vinci Code, the movie


Com a devida autorização da respeitosa redacção do "Nós e o Mundo" (ou não), aqui fica a crónica do mais recente blockbuster do cinema mundial, o Código da Vinci...

Adaptação do "best-seller" de Dan Brown (40 milhões de livros vendidos!), totalmente envolto em mistério - só foi visto pela primeira vez no Festival de Cannes, na véspera da estreia mundial -, "O Código da Vinci" já começou a incendiar multidões e a polémica está instalada.

O famoso simbologista Robert Langdon (Tom Hanks) está em Paris para fazer uma palestra quando é chamado ao museu do Louvre onde o curador foi assassinado, deixando junto de si um misterioso rasto de símbolos e pistas.
Colocando em risco a sua própria sobrevivência, Langdon, ajudado pela criptologista da polícia francesa Sophie Neveu (Audrey Tautou), põe a descoberto uma série de pistas inscritas nas obras de Leonardo Da Vinci, que o pintor engenhosamente disfarçou e que conduzem à descoberta de um mistério religioso, protegido por uma sociedade secreta durante mais de dois mil anos, mistério esse que abalará os pilares do Cristianismo.

Construída sobre esta linha, a narrativa desdobra-se entre a acção das aventuras de Langdon e Neveu e as teorias históricas acerca de temas como os Cavaleiros da Ordem dos Templários, o Santo Graal, o Priorado do Sião, a Opus Dei ou a suposta relação de Cristo com Maria Madalena, que tanto interesse e polémica causaram nos últimos anos.
A linguagem “cinematográfica” com que havia sido escrita a obra, fazia já adivinhar o aparecimento de um filme com orçamento milionário, e a Sony Pictures não fez por menos, contratando os serviços do oscarizado realizador Ron Howard (“Mente Brilhante”, “Apollo 13”), bem como do conceituado Tom Hanks (“Terminal”, “O Náufrago”) para protagonista, a par de Audrey Tautou (“O Fabuloso destino de Amélie”) ou Jean Reno (“Godzilla”, “Os Anjos do Apocalipse”), ambos certezas do cinema francês.

A complexidade da narrativa deixa a ideia de seria muito difícil, senão impossível, transpor todo o conteúdo do romance para duas horas e meia de película, mas mesmo assim, o filme deixa-nos boas sequências de acção e momentos interessantes. No entanto, a crítica não recebeu com grande entusiasmo a falta de criatividade de Howard, apelidando a adaptação de neutra e académica, e as personagens de corpos e presenças que só servem para desbobinar a intriga. Sobra-nos a sobriedade de Hanks e confirmação do talento de Tautou, bem como de Paul Bettany, o secundário que interpreta o monge albino Silas, porventura a personagem mais desconcertante do filme.
Convém realçar que eu fiz parte das 40 milhões de almas que contribuiu para engordar mais um pouco a humilde conta bancária de Dan Brown. Fica-me por isso a ideia geral de que o filme, apesar de jeitosinho e de alguns momentos de bom nível, fica muito a dever ao livro. Seria pois então interessante para mim ouvir a opinião de alguém que tivesse hibernado nos últimos anos a ponto de ter conseguido escapar à febre "davinciana" (ou isso ou que tivesse mais que fazer), mas que por agora se tivesse deixado levar pelo entusiasmo e compenetrado numa qualquer sala de cinema para ver Hanks e companhia.
Perdoem-me agora pela momentânea loucura cinéfila, mas tenho de fazer isto...
Classificação: 6 ****** (numa escala de 0 a 10)
Desculpem lá, sempre sonhei fazer isto. A seguir é na Premiere :P

sábado, maio 20, 2006

Moon angel...


Sentou-se e deleitou-se ao som da voz de Anna Nalick. Havia serenidade… Haviam pessoas deambulando em seus pesarosos passeios de início de tarde. Havia paz… Longe os tumultos da noite passada, longe o desespero da menina epiléptica, a surdez do simpático velhinho da camisola azul escura, a arrogância do oftalmologista, longe a espera de horas e horas e uma paciência levada ao limite. Havia agora sim este mundo, esta pessoa, este destino, esta lua… Tudo o resto é nada…

Havia uma magia espalhada pelo teu sorriso de menina, uma aura de harmonia ditada pelas notas da tua música, uma forma de viajar só ao alcance dos céus onde habitas…porque sim…

Reconheço um anjo não pelas asas que ostenta, mas sim pela forma como consegue voar…

segunda-feira, maio 08, 2006

As fitas...

Houve um dia alguém que eu vi encontrar umas fitas perdidas de um universo qualquer que não o seu, de outro alguém disperso algures na multidão de negro. Houve um alguém que não descansou enquanto as fitas não encontravam o seu pequeno universo, mesmo que estivesse longe, mesmo que fosse quase impossível de encontrar, mesmo que o assunto para qualquer outra alma (menor) fosse insignificante. Houve um alguém que não se esqueceu de procurar esse universo, que no fundo era também o seu próprio universo, porque tinha uma alma tão grande, que abraçava este universo e o outro, e o outro, e todos os demais…que enquanto todos os caminhos não estivessem certos, em qualquer universo, não conseguia estar feliz, porque nesse universo haveria alguém infeliz…

Parabéns. Porque são estas pequenas coisas que nos tornam especiais :)

Ser poeta...

Ora andava cá eu atarefado com não sei quê quando deparo de frente com esta pequena preciosidade, o bonito poema dos tempos do 8.º ano, dos tempos em que a vida era mais simples, dos tempos dos quadros de mérito, dos tempos em que a poesia surgia insegura por entre os TPC e os Dragon Ball… Deliciem-se. Ou satirizem, gozem, plagiem, mas estejam à vontade.


Ser poeta é…
Ser diferente.
É sonhar sem fronteiras,
Saltar muros de imaginação,
Atravessar mundos sem gente.

Ser poeta é…
Passar além do imaginário,
Como se o real não existisse.
É carregar emoção em cada palavra,
Soltar lágrimas quando conversa
Como se de outro mundo viesse.

Ser poeta, essencialmente,
É ser humano,
Porque todo o humano é poético.
É ser veemente
Para com todas as palavras que existem
Sem erros, pontuação ou ortografia,
Pois tudo isso não existe
No mundo fantástico da poesia…

sábado, abril 15, 2006

Em Avanca...


Em Avanca, terra do nobel Egas Moniz, os velhinhos andam de bicicleta e as cegonhas fazem ninhos nas torres do estádio. Em Avanca fazem-se chocolates e as pessoas têm sotaque, mostrando-o sem vergonha enquanto distribuem sandes pelas mãos dos miúdos. E eu, lá no meu canto, deixei-me ser miúdo por dois dias, aceitei de bom grado as sandes e joguei à bola no sintético com o entusiasmo de quem o fazia pela primeira vez. Antigamente achava difícil entrar neste pequeno mundo, onde alegria e imaginação parecem intermináveis, quase ridículas. Agora só penso que o único ridículo era eu.

Hoje aproveitei para reflectir. Nas prioridades. Nas viagens. Nos afagos ao ego. Na vontade de estar mas não poder. No que o dia ganha em começar mais cedo, naquilo que perde por não começar mais tarde. Na medalha que insisti em trazer de Avanca como pequeno troféu. Na mania incompreensível das arrumações de Páscoa (não seria melhor começarmos a chamar-lhe Dia Anual do Tenho-que-deixar-tudo-limpo-senão-o-sr-padre-diz-mal-de-mim-na-missa??). Nos golos que marquei na quinta por respirar energia. Nos golos que falhei hoje por estar cansado. Nas prioridades…

No final, só um registo, daquilo que de melhor, nestes dois dias, consegui ter, pensar, oferecer…

“Imagino por vezes que viver no céu seja isto, nas asas de uma qualquer andorinha perdida, elegante, livre em toda a sua plenitude…e que em qualquer dia de nuvens negras, vagueando ao sabor do vento, saiba encontrar no escuro uma aberta, e assim iluminar a alma…tu és isso, a minha luz…”

quinta-feira, abril 13, 2006

A minha vida é um sundae de chocolate


À parte outros pensamentos envolvendo sitcoms e demais alegorias, por momentos, durante um destes dias de felicidade constante, dei por mim a pensar...a minha vida é como um sundae de chocolate... Veja-se a consistência do gelado, o toque cortante do chocolate, a doce mistura de sabores que tu me ensinaste (e continuamente me ensinas...), o finalzinho derretido no fundo do copo, a pequena colher que carinhosamente recolhes e fazes parecer dádiva divina... Não será isto mais do que crónica breve da nossa realidade? Do que sinto, do que me fazes sentir?
Ou talvez apenas mais um capítulo, desta história que teima em ser cor-de-rosa, cor do céu, cor da lua, cor das flores que registamos e passamos para a tua tela, cor do que mais belo se possa imaginar (como tu...), por entre sitcoms, desenhos animados, fotografias com estilo ou simples corridas de miúdos pelas escadas...tu sabxxx...e eu tb :)

domingo, abril 09, 2006

Há coisas que não se explicam...


Há coisas que não se explicam, sentem-se… Existem melodias que bem mais do que a junção de notas, são puros hinos de harmonia e de paz, alquimias suaves neste jogo de colisões… Jogos, emoções, vitória, emoção, o stress, sim esse que abomino, a agitação, a alegria entrecortada na profusão de sentimentos, a cabeça aí, contigo, num qualquer lugar que não aqui, uma lua que insiste em ser crescente, nova, cheia, tudo e mais alguma coisa que o sonho outrora não atingia, porque o via distante, tão distantemente que a esperança não era mais do que vã… pensar na sorte, sim a sorte, essa que julgava distraída, que vejo presente, não, não fugaz, quero que fiques assim, ao meu lado, em cenários suaves, loucos, estendidos pelo toque que nos une e trazem, em momentos póstumos, consigo a saudade… O momento que gravamos, aquilo que insistimos em tornar perene, em qualquer suporte técnico, na imaginação, na mente sagaz, ávida, tanto para dar… Há sintonia, sim, mais do que nunca, sempre que tudo, tudo o justifica, a vontade de fazer mais, de voar, fazer com que o mundo gire com velocidade nunca antes vista, mas suave, tão suave que nos faça eternos…pelo menos enquanto o luar esteja por agora mais azulado…

sábado, abril 08, 2006

Bonança...


Começava em tempestade…mas acabou em bonança. Vai ser difícil esquecer descrição tão singela. Quanto mais porque a bonança se eleva para muito mais do que uma simples vingança de mau tempo apagado, mas sim toda uma vida para além do palpável, ou simplesmente a crónica de felicidade impensável. É bom sentir a areia por baixo dos pés como se o mar fosse caminho sem destino, abraçar o vento, sim o vento de olhares gritantes e gestos fulgurantes, correr sem rumo, ou apenas ser, mas contigo…porque assim as coisas fazem mais sentido…porque as cores não esbotam...porque a bola ultrapassa a rede...porque assim o mundo, finalmente, se torna completo…
"A felicidade solitária não é felicidade..."
Boris Pasternak

sábado, março 25, 2006

Oportunidades...


Se a felicidade falasse, haveria de ter agora finalmente a sua oportunidade…As palavras, percebia agora, eram estranhas companheiras no negro, mas distantes na luz, mas isso não importava. Importava o sentimento…e a lua…

sábado, março 18, 2006

A chuva...


Olhou a chuva. Havia qualquer coisa de belo que afeiçoava, um bucolismo desconcertante que valia a pena explorar. Parecia novo, o momento, a brincadeira, a alegria, a saudade… Uma frase, um riso, um rio, um sentimento que destoa, um acreditar, a clareza de espírito e não só… Uma aura que se estende pelo amanhã, o sorriso ao nascer do dia e aquele pequeno sentimento de felicidade… Que se estende? Não… Há frases que tolhem. Que chateiam, qual infeliz lembrete da realidade. Tal como andar à chuva…

domingo, março 05, 2006

The "desafiate"

Cada blogger nomeado tem de enumerar cinco manias suas, hábitos pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de tornar público o conhecimento dessas particularidades, terão de nomear cinco outros bloggers para participarem igualmente no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogs, aviso do "recrutamento". Além disso cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blog.

Ora bem, lá terá de ser...

1o. durmo com a cabeça sempre debaixo do cobertor
2o. gosto de lamber o cremezinho do café
3o. conduzo sempre com uma mão na alavanca das velocidades
4o. arrumo os feijões para o lado em todos os pratos excepto feijoada (dahhh...)
5o. sou um compulsivo consumidor de chocolate e seus derivados

Pronto, gozem para aí agora...

sábado, fevereiro 25, 2006

O sonho...


Acordou zangado. Os raios de sol que irrompiam pela janela aqueciam a cara, mas não a alma. A noite, demasiado longa, apagara aquele assalto de inegável felicidade como se de uma tempestade em dia de Verão se tratasse. Pensava em como a beleza alheia podia ser estranhamente incómoda, não pelo seu significado em si, mas sim pelo peso que acarretava. Sentia que a desigualdade seria sempre um fardo com o qual teria de lidar, o quão pequenino se parecia sentir perante tamanhas demonstrações de excelência e graciosidade. Adormecera cor-de-rosa, mas acordara cinzento. Os acessos de realismo exacerbado tinham este condão, o de cortar sem piedade aqueles pequenos momentos de plenitude, de harmonia, de felicidade…ou talvez ilusão… Sentia-se impotente. Incapaz de chegar ao topo, mais uma vez. Convencera-se a si próprio por momentos que saíra da mediocridade e conquistara a dignidade de igualar em estatuto a beleza, mas em vão. Era linda...ou apenas sonho?

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A intempérie


Puxou o gorro um pouco mais para baixo e enfrentou de frente a intempérie. Lembrou-se que há muito que não sentia um frio assim, embora a questão pouco o incomodasse. Durante a noite sonhara em abundância, mas só os pesadelos vinham à memória. Haviam-lhe roubado o carro, mas recuperara-o, bem como todo o resto da sua dignidade no momento em que abrira, a custo, os olhos. Sentia-se preguiçoso, mas isso já não era novidade. Desde há uns dias que o pacifismo havia ido, e o retorno à languidez e à reflexão funcionavam como que uma couraça que não permitia a estranhos irromper no seu pequeno mundo. Pensava em como estes dias, felizmente pouco frequentes, podiam alterar a imagem de simpatia e sociabilidade que procurava cultivar, mas na realidade deixara de se ralar, a partir do momento em que havia aceite por fim a sua individualidade. Preocupava-se com os outros, era um facto, mas só aqueles que realmente importavam valiam uma mudança de comportamento, uma cara alegre em dia de tempestade. Afinal vivia rodeado de rejeições, e a ingratidão era defeito que desprezava. Finalmente chegou. Tirou o gorro mas não o semblante carregado. O sorriso teria mesmo que esperar…

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Thanks!

Um obrigado especial aos verdadeiros amigos e miguinhas por se terem lembrado do dia dos namorados. Não, e não falo propriamente do S. Valentim. Vocês sabem....

Prazeres...


A auto-estrada estava calma, como era normal àquela hora. Entregou-se ao mais puro prazer da condução. Acordara com predisposição para aceitar o mundo, isso era evidente, daí que tudo o resto não importasse, mesmo que noutras ocasiões o mesmo se mostrasse incómodo. Nem a voz monocórdica de Abrunhosa na telefonia chateava, muito menos o cromo do camionista que seguia a velocidade pedonal. Tudo se mostrava demasiado pacífico. Estranhamente hoje não cantarolava, só um tímido balbuciar quando a viagem se aprestava ao seu término. Era um dia anormal, por isso o punha a pensar. Haveriam assim tantas razões para o equilíbrio? Era óbvio que não. Mas mais do que isso, ele finalmente aceitara-o. Integrara-o de tal maneira que dispensava parte da realidade para prosseguir o seu caminho. Havia finalmente uma forma de ultrapassar o obstáculo, que não necessariamente transpô-lo, talvez contorná-lo, que havia descoberto e que parecia resultar…

Seria possível confundir sentimentos? Havia esse risco, era inevitável, mas a alternativa de passar ao lado, ignorando toda e qualquer possibilidade de realização do sonho, mostrava-se claramente nefasta e prontamente rejeitada pela frieza que o pautava. Parou por momentos e repreendeu-se a si próprio por ser tão calculista. Era um defeito óbvio que não conseguia corrigir e isso irritava-o, mas moderadamente. Esta discreta falha da sua personalidade tinha a vantagem de esclarecer o raciocínio em situações de stress, auxiliando aquela que já era uma crónica incapacidade de decisão. Nem sempre pesar os prós e contras seria o melhor método, bem o sabia, muito menos quando estavam em causa sentimentos, mas era o melhor que conseguia fazer. Escolhia as suas opções em função da racionalidade, ignorando a (pouca) inteligência emocional que possuía, e os resultados estavam à vista. Quando tudo, tudo na sua vida se parecia basear neles, ou na sua falta… Acendeu a televisão. Estava na hora de voltar à sua realidade favorita.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Thoughts...


Perdido por momentos por entre o sol de Inverno, sentiu fugazmente o sabor da felicidade. Sabia que algo estava incompleto, como se de um puzzle em montagem se tratasse, mas a agradável subtileza com que as outras peças por ora se encaixavam mascarava a perda, permitindo a ilusão satisfatória da plenitude. Há consciências verdadeiramente chatas, de permanente sobreaviso e realismo incómodo, da qual ele sabia ser impossível conseguir fugir. Era tão apenas e só uma questão de tempo. Mas enquanto durasse, o momento dever-se-ia eternizar, aproveitar, engrandecer até ao tutano, de modo que a vida, por entre os seus meandros de causas perdidas, tivesse enfim uma pausa que merecesse ser contemplada.

A importância desmedida das grandes coisas tinha este tipo de consequência, que insistia em ignorar o valor das mais pequenas. Ele sabia que o sonho, ou seu parente próximo, não passava disso mesmo, de um sonho. Não ousava trazê-lo para o plano da realidade, porque os efeitos, a existirem, seriam demasiado maus para que ele pudesse vir a aceitá-los sem se culpar a si próprio por não ter pensado em alternativas. Preferia deitar-se e simplesmente deixar a alma voar, pensar em como seria bom se um dia se concretizasse, sustendo na mente aquela imagem que o aconchegava, do que simplesmente divulgar o segredo, transformá-lo em problema e estragar o que por agora tinha sido atingido. Era demasiado bucólico, ele sabia-o, mas continuava a querer dar valor às pequenas coisas, que o faziam todos os dias um bocadinho mais feliz, em vez de uma realidade cinzentona e agreste, que no fundo, acreditava não merecer. Talvez se enganasse a si próprio, mas que importa, se nunca tivesse dependido dele a opção?...

sábado, janeiro 21, 2006


Só para dizer
que te amo,
nem sempre encontro
o melhor termo,
nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
a lingua inglesa
fica sempre bem
e nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo
está tão perto do meu,
e o que digo está tão longe
como o mar esta do céu.

Só para dizer que te amo,
não sei porquê este embaraço,
que mais parece que só te estimo,
e até um momento em que digo
que não quero e o que sinto por ti
sao coisas confusas.
E até parece que estou a mentir
As palavras custam a sair
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrario do que estou a sentir

O teu Mundo
está tão perto do meu,
e o que digo está tao longe
como o mar esta do céu
E é tão dificil, dizer amor,
é bem melhor dizê-lo a cantar.

Por isso esta noite
fiz esta canção
para resolver o meu problema de expressao.

Pra ficar mais perto
Bem mais perto
Fica mais perto
Bem mais perto

Clã - Só para dizer

domingo, janeiro 01, 2006

2005 ou o ataque de um realismo inconsequente


Uma revista do ano?? Terminei o curso, arranjei emprego, o Benfica foi campeão. É no mínimo surpreendente que após 5 minutos de azáfama cerebral me não consiga recordar de algo mais relevante. Estarei a ficar demasiado cinzento ou terão os golos de Mantorras simplesmente bloqueado as minhas sinapses? É por estas que dou valor à procissão de hippies que recentemente invadiu Gaia para a passagem de ano. Pelo menos esses dirão: “2005?? Trabalhei 3 meses, visitei Amsterdão (pela 18.ª vez), Bruxelas e Praga, comprei uma VW de 87 e passei o ano em Portugal com os amigos, conhecidos, uma simpática apresentadora de TV e aquela coisa que comprei em Amsterdão e que me forçará a trabalhar mais 3 meses em 2006 para que possa ir lá pela 19.ª vez…”

Esperemos que 2006 seja bom. Ou pelo menos com mais e melhores momentos passíveis de recordação em 2007. E para que assim na próxima passagem de ano quando me disserem “que o próximo ano seja melhor que este!” eu possa responder não “também acho” mas sim “impossível…”

Momento do dia: o esquilo do Ice Age. Oxalá todas as personagens de comédia do cinema contemporâneo tivessem um terço do talento daquele bicho.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

quarta-feira, novembro 30, 2005

Falemos de gripe das aves, da dona Jaquina, da VCI em hora de ponta ou das contradições de Shakespeare...May I?


Deixemo-nos de filosofias ou divagações baratas. Importa talvez agora desviar as atenções para coisas mais simples, mais quotidianas, capazes de dar descanso ao belo do neurónio, que para problemas já ele tem que chegue quanto mais não seja com a gripe das aves. Faz sentido? Claro que sim. Discutam-se então as opções do primeiro-ministro, o porquê das ultrapassagens pela direita na auto-estrada, a mediocridade de pensamento da vizinha, o 4-3-3 demasiado afunilado do Rio de Moinhos ou o pretenso penalty sobre o Carlitos em Barcelos. Escolha difícil, hein?

Precisamos de uma boa intriga, nem que seja acerca do Zé que já não quer casar com a Jaquina ou do chefe lá do emprego que anda metido com a secretária faz um mês. Mesmo no nosso grupo de amigos, se a conversa parece mais morta que uma cerveja nas mãos de um rabi, não há melhor desbloqueador que aprofundar porque nos levantamos da mesa na semana passada quando o colega de turma x da namorada y se sentou ao lado dela sem ter direito a lambada no focinho ou no mínimo a repreensão oral da sua parte. Logo se descobre que x já teve paixão por y, que y confessou a z (sendo z a verdadeira amiga do casal, a tal que diz as verdades na cara, mesmo que a cara não lhe ligue patavina) que o x até era interessante, e que eu, namorado de y, no meio desta equação toda era igual a zero por não levar y a jantar fora há mais de uma semana e meia (sublinhe-se a importância do meia). Claro está que no final z conversou comigo, y confessa que fez cena de ciúmes com x para provocar 0, o que no final = jantar em restaurante indiano – muitos euros na carteira + com um bocadinho de sorte uma noite de sexo calorosa. Naturalmente que falamos em termos hipotéticos. Nem eu seria alguma vez igual a zero, muito menos escolheria restaurantes indianos para ir comer com uma letra do alfabeto. Quanto mais ia à pizza hut.

Agora mais a sério, ouvia eu há uns dias atrás, enquanto degustava cada momento do caos que apanhei na VCI em hora de ponta, um interessantíssimo anúncio na rádio em que um sujeito qualquer intercedia com sensatez o belo ícone do nosso imaginário colectivo que é esse tipo de tanga chamado tarzan: “olha tarzan, olha um elefante no alto da colina!” E pronto, volta e meia mete-se uma carrinha de trolhas à minha frente na bicha… O que daria certamente para mais uma divagação sobre a importância do civismo e da boa conduta na nossa sociedade, o número assustador de acidentes nas estradas portuguesas, a morte de neurónios causada pelas pás de trolha, etc, etc…Mas não vale a pena ir por aí. Moral da história: nunca percam tempo a tentar decifrar piadas inteligentes, quando menos se aperceberem, já houve algum esperto que se antecipou.

Ah, só para acabar, a sério que gosto de Shakespeare. Tenho o moço em boa conta. Agora só não percebo como é que o mesmo tipo que num ápice, em nome do amor, manda Romeu e Julieta desta para melhor, me vem dizer depois que o mesmo amor “cura todas as feridas”. Se essa é a solução, mais vale “a gente suicidarmo-nos uns aos outros”, tal como diria Elsa Raposo. Ou então não nos “aleijarmos”…

Portem-se bem (sim, vocês, fieis visitantes deste blog, o dois ucranianos que mantenho fechados na minha cave mais a miúda cujo computador recentemente piratiei)…

terça-feira, novembro 22, 2005

Um rumo...


Quis o mundo que os nossos caminhos divergissem sob o signo sempre decidido do destino. Não pensei sequer em lutar. Olha-se para a frente com a frontalidade que se nos assume em clarão de efémera coragem e reza-se para se esquecer o arrependimento. E depois é o acreditar em melhores desígnios, num coração forte e numa alma que não chore com lágrimas grossas um passado que nunca o chegou a ser realmente. Lugares ainda não percorridos, sensações não vividas, metas não atingidas. Enganar com peneira uma alma pobre de afectos e jurar que o passado não pode ser mais sombra deslocada e incómoda. Assim o peito aberto permita enfrentar as amarras de uma rede que tolhe. Que os laivos de sensatez e lógica exacerbadas naufraguem de uma vez em mar profundo. Assim o barco deixe de ser apenas ilusório e cumpra finalmente sua rota. Talvez a jornada se conclua um dia. Não peço novos continentes, cabos dobrados ou tesouros escondidos. Apenas um rumo…

domingo, outubro 30, 2005

Onde se fala de filosofias, fragmentos, encenações, ou simplesmente da tua beleza...


Desatina-se com o sofrimento, escapam-se divagações, filosofias e outras tretas de somenos importância que o vento deixa levar sem queixa alguma. Acorda-se no outro dia pronto a travar novas batalhas. Há-de sempre ser assim, a inconstância, a instabilidade, a pequena loucura da montanha-russa de emoções que não passa do espelho de uma vida fragmentada. Contam-se os pedaços e retorna-se, lentamente, a remontar o puzzle, como se estas peças que parecem fáceis o fossem realmente. O caminho é longo, mas eternamente repetido. Esquecem-se as pessoas, porque a memória é curta, que foi só há dois dias que o travesseiro recolheu lágrimas e que o mundo parecia estar todo ao contrário. Sofre-se e alegra-se, ao mais típico gesto teatral. Pergunto-me a mim próprio se a vida não passará disso mesmo, uma eterna e rocambolesca encenação…

O coração esgota-se, esgota-se como o odor do teu cabelo e a brevidade dos teus gestos harmoniosos, cansa-se perante tamanhas demonstrações de graciosidade sem fins previstos pela ordem da lógica. Assim, belos em todo o seu esplendor… Sim, os teus olhos, a tua boca, a tua aura de ancestralidade que me faz pensar por vezes não conviver no planeta desses demais que nos circundam. Fujamos juntos para o céu e para as nuvens, tracemos um rumo diferente de tudo o que soa a ordem e atino. Serias capaz de mudar o mundo? Então e eu?

sábado, setembro 24, 2005


E apenas pensar que o mundo é apenas um momento, um sopro, um gesto. Uma insignificância entre tantos factos incontáveis. A importância do agir. Move-te, usa, decide. Torneia por instantes a tua altivez e sobe aos píncaros da emoção. Torna-te em herói de película de acção, salteia muros e move montanhas, mas não te situes perpetuamente na sombra do teu ser.
Depois sim, poderás viver.

domingo, setembro 18, 2005

Devaneios...


Devaneios, conteúdos, tratados assinados entre mentes desconexas que tornam a existência momentaneamente mais aprazível. Serão significados ou simples alterações divagantes? Fluxos de água e suor e sangue com fim imprevisto, ou apenas lagos fundos de tesouros perdidos, encalhados num leito que se sabe nunca explorado? Almas inquietadas, suspensas, esperando juntas que o toque decidido do destino as una em jeito de fatalidade. Sons dispersos, mas decididos, vozes, muitas vozes, ecos distantes que auxiliam, orientam, qual ténue luz ao fundo do túnel que treina incessantemente o traço de um rumo…És tu capaz de cumprir teu desígnio? És voz interior, tu, que arrombas o meu corpo sem pudores de sensatez, és rainha que assalta seu reinado, és olhar lancinante com jeito desconcertante. É isto que busco? Que persigo, que procuro desde primórdios esquecidos, que sonho todas as noites com desatino constante?

domingo, setembro 11, 2005

Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
Há, nos meus olhos, ironias e cansaços
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Como, pois, sereis vós
Que dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “Vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se levantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!

José Régio

terça-feira, setembro 06, 2005

Sentimentos


Há simplesmente sentimentos que não têm lugar no mundo das palavras. Ao olhar uma estrela cadente com o seu rasto luminoso espalhado pelo céu, perdem-se momentaneamente todas as bases da razão, as dicas da racionalidade ou as boas intenções da lógica. É como se por instantes nos roubassem o que quer que nos sobrasse de bom senso ou inteligência básica. Ou como se o quadro estivesse incompleto. Sem paisagem, sem cor, sem brilho que permita a ostentação da beleza que se quer ímpar, única, mas que no fundo não é mais do que qualquer outra tela...

segunda-feira, agosto 15, 2005

Vacaciones


Olá... Fui de férias. Dormi, comi, vi tv, fui à praia tostar e banhar-me nas ondas cm se nao houvesse amanha, dancei, bebi uns copitos nos bares da zona, dei por mim a escrever na areia às 4 da manhã ou a apreciar languidamente o pôr-do-sol. O que isso vos interessará? Nada, é só mesmo para meter inveja. O que é certo é que a vida seria ainda mais bela com mais imagens como esta...
Gostava de um dia poder ser digno da tua beleza, do teu sorriso, da graciosidade com que te patenteias, te moves, pensas, existes… Sonho com o dia em que o luar será testemunha da nossa comunhão com as estrelas, em que o toque doce dos astros nos una para sempre em harmonia celestial…
astolfo 05'

domingo, julho 31, 2005

Thoughts...


Quero mais mas não posso, desejo mais mas não consigo, sonho mais mas não realizo. Que filme este, de película barata e cinzenta, esburacada e amorfa, sem vontade de alegrar ou de viver. Qualquer coisa divertida? Não existe. Não chega sequer para colorir uma noite vazia, impregnada de suores frios e insónias tardias. Não chega, não convence, não faz a sua viagem. Não vem do país dos sonhos, espalhando rastos luminosos ou arco-íris delirantes. Porque pura e simplesmente não existe. Ou não aparece. Ou não se digna em fazer cumprir o seu destino, juntar-se à sua metade, concretizar o sentido da sua existência. Talvez seja assim, o nada. O vazio assusta. Mas não é ignorado, subestimado. Faz parte da vida, como o fel do mel, o negro do branco, a covinha do teu sorriso que te faz mais tua, digna de si. É assim que te desejo, com defeitos, com manchas, com um passado e um presente, mas sempre com a covinha do teu sorriso, que faz de ti única, perene, incomparável…mas acima de tudo, real…

domingo, julho 24, 2005

Paisagens...


Uma boa paisagem é como uma janela para o nosso interior. Revela aquilo que somos e o que fomos, que queremos e o que conseguimos. Antecipa o futuro e faz recordar o passado. Congela o momento. Aquele momento que devia durar para todo o sempre, o momento em a história pára, os sons, as imagens, os odores se tornam únicos, inolvidáveis… Não desejava que fossem apenas momentos, mas perderiam irremediavelmente toda a sua magia se não fossem assim, tão tristemente efémeros. A fugacidade parece ser a estranha e masoquista condição para que sejam paradoxalmente duradouros, mas apenas na mente. Porque aí se tornam eternos, incomparáveis…esculpidos por hábeis artífices, prontos para ser delicadamente deixados na maior prateleira da nossa memória, brilhando perante toda uma série de recordações…

sábado, julho 16, 2005

Just stuff...


Cheguei, finalmente, ao fim do meu percurso académico. Acabaram-se as aulas e os testes, os professores e os exames, os estudos ao fim-de-semana e os agitados trabalhos de grupo. Festejei com uma bela jantarada, acompanhado pelos verdadeiros amigos, aqueles cuja faculdade foi apenas formalidade para que tivéssemos a oportunidade de nos conhecer. Há contudo neste momento para tantos de alegria imensa, um estranho sentimento de perda ao qual não consigo fazer frente. É como se ao fim de tantos anos de preparação para algo de importante, nos apercebêssemos finalmente que o realmente importante não é o que vem a seguir, mas sim o que se acabou de passar. E sem retorno possível. É, no mínimo, uma sensação estranha, mas não choro ou entristeço. Dou razão a Graham Greene: “no momento da comoção sofre-se pouco.”
Vejo a “Guerra dos Mundos”, protagonizado pelo maluco do Tom Cruise e assinada por baixo pelo velho Spielberg. Bem vistas as coisas, a grande razão que me levou a levantar do sofá e sentar-me nas cadeiras do cinemax. Apesar de não o achar nenhum génio, verdade seja dita que tudo onde o homem mete a manápula costuma ter selo de qualidade. Chego ao fim e reflicto. Bom drama, sem dúvida. Mas esperem aí, drama? Ter-me-ei equivocado na etiqueta? Lamento, mas não. Apesar das espectaculares e visualmente apelativas sequências de acção, o filme nunca se consegue descentrar do dilema de um pai totalmente perdido na sua gloriosa missão em salvar a família. São muito bem conseguidas, diria mesmo que brilhantes, as cenas de pânico, de claustrofobia, de uma quase piedosa comiseração pela espécie humana. Mas desenganem-se os que buscam uma guerra com alienígenas. A única guerra neste filme, é mesmo a do Homem com os seus próprios sentimentos.

PS: Há pôres do sol simplesmente fantásticos, não acham?

sexta-feira, julho 08, 2005

Reconhecimento...


Por muito que me apontem explicações intrincadas, sempre irei achar que o objectivo uno de todo e qualquer ser humano é de teor bem simplista: obter o reconhecimento dos outros. Observe-se cautelosamente as conversas banais de mesas de jantar ou barbeiros e que se regista? Que os nossos maiores e mais pequenos feitos só obtêm validade se devidamente considerados pela opinião sábia de que nos rodeia, independentemente da sua cor, raça, aptidão profissional ou animal doméstico. Convenhamos, é impossível fugir a esta tese. Afinal, as mais altas instâncias da instrução pessoal não só seguem o método como o incentivam vorazmente. De que nos serviria um mestrado ou doutoramento sem o respectivo canudo religiosamente pendurado na parede do quarto?
PS.: Após o pedido de inúmeras famílias e alguns emigrantes de leste, e depois de encontrada alternativa viável a esse intrincado enigma filosófico que é o programa Hello, decidi finalmente começar a publicar algumas das minhas fotos. O que terá a ver a dita flor com o post, perguntarão vocês. Absolutamente nada, direi eu. A beleza cabe em todo o lado...
PS2.: Nexinha, bem sabes que a parte dos emigrantes de leste e das famílias era a brincar :p Obrigado pela dica. Bjokas

sexta-feira, junho 24, 2005

Saint Jon

Hoje pus-me a olhar para este cenário. Isto anda um bocadito fracote…Pois é, uma vida muito ocupada. E uma mente também… Enfim, hoje é dia de Saint Jon. O povo diverte-se, os balões sobem ao céu, dão-se firmes marteladas como se não houvesse amanhã. Comem-se as belas das sardinhas. Ainda as sinto a navegar no intestino delgado, afogadas no meio do azeite. Que se seguirá, o regresso do alho-porro assassino?

Ponho-me a olhar para o céu. Há fogo de artifício, um 747 a piscar ao longe e um balãozinho com a sua luz deambulante prestes a desaparecer no horizonte. A lua não aparece, deve estar envergonhada. Mas anteontem estava magnífica. Grande, majestosa, cheia de luz, de brilho incandescente e de magia por entregar. Era o dia mais longo do ano e a rainha do baile não podia faltar à festarola. Hoje a noite é para outras luzes. Nada de protagonismos exacerbados, bem entendido. Quem diria que os astros podiam ser tão inteligentes? ;)
Ah, e não, por favor não me peçam mais para meter imagens aqui. A sério, chega de mails e telefonemas intimidatórios. Simplesmente recuso-me a trabalhar com o Hello. Afinal, que se poderá pedir mais de um programa com um nome tão cinicamente ridículo?

domingo, junho 12, 2005

Bla bla bla bla bla bla

Olá povo! (ou o que resta dele) Ultimamente o tempo tem sido escasso, por isso escrita só mesmo nas aulas...e pouca porque canso-me depressa. De resto, o costume, frequências, trabalhos, o trabalho de apresentar o trabalho, cinema e fugir das praias o mais possível, não vá um arrastão apanharmo-nos e deixar-nos com as mãos a abanar...
Bem, tou cansado. Deixo-vos portanto umas linhas de prosa da minha amiga ishta, companheira de aventuras... jornalísticas e afins, e sra de talento respeitável nestas lides. Portem-se bem.
"O vazio. Ultrapassa as fronteiras, define os contornos e as formas de uma sala, as formas de um corpo e as dimensões de mim. Entra para lá das portas fechadas, e preenche o limiar da memória, sem sequer as abrir. Preenche páginas, enche caixas de bilhetes. Assina a sua marca, marca o milímetro da passagem e o milésimo de segundo da paragem.Sussurra um nome e uma palavra.
Acreditei em esperanças e sonhos que eu própria criei. Depressa constatei que o sonho se tornara vulgarmente triste... De uma espera sem objecto... De uma luta contra o nada...
Ok, e daí? Sim, viro a cara a quem merece. Sim, sou de fitas e tenho paranóias. Sim, tenho percepções sem fundamento, mas com pressentimento. Quero o limite. Já não há paciência. Cinismo. Retracção. Vergonha. Sei lá eu o que te reveste nestes dias que vigoram. Um de nós vai ter k se reciclar. Isso é ponto assente.
E se no final me parecer que o mundo gira ao contrário, ou ao contrário do contrário, seja no sentido dos ponteiros do relógio ou mesmo sem sentido algum, dir-te-ei que fui feliz, naquele momento, naquele dia, ou até mesmo naquele segundo que ficará eterno até o eterno não ter mais sentido."
Ishta 05'

sábado, junho 04, 2005

Uma questão de espírito

Lembro uma passada aula de dinâmica de grupos. A emoção foi incontida. Vivem-se os últimos dias de uma autêntica era que acaba na nossa vida. Motivo de tristeza? Não. Tal como subtil mas eficazmente a professora me fez notar, dou mais valor ao lado positivo da questão, que é como quem diz, à inegável e feliz capacidade de termos criado verdadeiras amizades, incapazes de ruírem com o tempo ou pequenas distâncias espaciais. As etapas são mesmo assim, existem para serem ultrapassadas, vividas na sua máxima plenitude e rapidamente substituídas por outras que nos revigorem a alma. Claro está que existem umas que são mais do que outras, e que por serem algo mais são dignas de serem recordadas. Com choro e melancolia? Não. Em conjunto com quem as vivemos, ao sabor de uma bela jantarada, sim. Porque o espírito, esse, por mais etapas que sejam vividas ou barreiras que sejam transpostas, nunca há-de morrer…